Enquanto os jornais de Brasília se ocupam da última fofoca palaciana, a bolsa de Taipé fechou o pregão com o Índice Taiwan Weighted subindo 1,13%, e ninguém no Itamaraty parece se dar conta de que aquela ilhota do tamanho do estado de Santa Catarina produz mais semicondutores avançados do que todos os países do G20 somados. É um pedaço de terra que, se afundasse amanhã, levaria junto o seu celular, o seu carro, o seu forno de micro-ondas e boa parte da inteligência artificial que ora escrevo e que você lê. E o mercado sabe disso. O mercado sempre sabe.

Repare no detalhe que quase ninguém comenta. Um pregão em alta em Taiwan, num contexto de manobras militares chinesas rotineiras no Estreito, de porta-aviões americanos manobrando no Pacífico e de uma cadeia global de suprimentos que depende de uma única fundição chamada TSMC, não é notícia de página de economia. É notícia de página um. O preço das ações taiwanesas é o termômetro mais honesto que a humanidade dispõe hoje para medir a probabilidade de guerra na Ásia. Quando sobe, é porque investidor de verdade, aquele que aposta o próprio dinheiro, calcula que o barco ainda não afunda esta semana. Quando cai, é hora de rezar.

Siga a trilha do dinheiro e a história fica interessante. Quem compra ação taiwanesa hoje? Fundos americanos, fundos japoneses, fundos europeus, e sim, dinheiro chinês travestido de Hong Kong e Singapura. O mesmo Partido Comunista que jura invadir a ilha na próxima segunda-feira compra a ilha por atacado nas terças. Isso se chama contradição performática, e é a mãe de nove entre dez políticas externas do século vinte e um. Enquanto o discurso oficial fala em soberania e reunificação, o capital fala outro idioma, o único que importa quando a hora aperta, que é o idioma do lucro trimestral.

Há uma lição austríaca dentro desse pregão banal, e ela é a seguinte. Nenhum burocrata, nem em Pequim, nem em Washington, nem em Bruxelas, consegue centralizar a informação que milhões de investidores agregam em segundos na cotação de uma ação. Os planejadores centrais podem decretar a queda de Taiwan em comunicados solenes, podem escrever livros brancos sobre a inevitabilidade histórica da reunificação, podem desenhar mapas coloridos com setas apontando para a ilha. O preço, porém, diz outra coisa. E o preço, esse velho impertinente, tem o hábito irritante de estar certo mais vezes do que os generais e os diplomatas juntos.

Fica também a lição prática para o investidor brasileiro, que costuma tratar Ásia como assunto exótico, coisa de canal fechado de televisão paga. Meia dúzia de empresas taiwanesas fabricam os chips que fazem funcionar o agronegócio brasileiro, o Pix, o sistema bancário, as urnas eletrônicas e o próprio ministério da economia. Se um dia o Estreito de Taiwan pegar fogo, o preço do arroz em Fortaleza vai subir antes mesmo de o primeiro tiro ser disparado, porque toda a logística global depende de sensores, controladores e processadores que só existem porque uma ilha de vinte e três milhões de almas resolveu, contra toda a lógica geopolítica, virar a fábrica de silício do planeta.

Alta de 1,13% num pregão é pouco, dirá o leitor apressado. É muito, respondo eu, porque cada centésimo de ponto naquela bolsa é um voto de confiança de que o mundo ainda não pirou de vez. No dia em que o Índice Taiwan Weighted despencar dez por cento numa sessão só, sem motivo aparente, pare tudo o que estiver fazendo e ligue a televisão. O mercado terá visto antes de todo mundo, como sempre viu, e você terá menos ou mais uma hora para tirar o dinheiro da renda variável antes que o resto do mundo descubra que a festa acabou.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.