Um armador cobrando mais de US$ 1 milhão por dia para arrastar petróleo pelo Estreito de Ormuz não é notícia de mercado, é confissão de falência estratégica. O tráfego despencou, os seguros de guerra explodiram, e as tarifas de VLCC, aqueles gigantes que carregam dois milhões de barris por viagem, saltaram para patamares que só se viam em pesadelo de trader. Tudo isso porque uma faixa d'água estreitíssima, por onde passa perto de um quinto do petróleo consumido no planeta, virou de novo refém do humor de um regime teocrático que os ocidentais preferiram apaziguar a confrontar.

Quem paga essa conta não é a petroleira, não é o armador, não é o segurador. Quem paga é o motorista de aplicativo em São Paulo, a dona de casa em Buenos Aires, o padeiro em Nápoles. O frete entra no preço do barril, o barril entra no preço da gasolina, a gasolina entra no preço de absolutamente tudo que se move, se planta, se colhe, se embala e se entrega. É o imposto invisível mais perfeito já inventado: ninguém votou, ninguém aprovou, mas todo mundo desconta no caixa. E o mais delicioso da farsa é ver os mesmos governos que sabotam suas próprias indústrias de energia em nome da transição climática correrem desesperados atrás de barris que ficaram caros justamente porque ninguém quis mais produzir em casa.

A história do Ocidente com Ormuz é um manual de como transformar vantagem estratégica em dependência humilhante. Nos anos 80, na guerra dos petroleiros entre Irã e Iraque, a Marinha americana escoltava navios sob a bandeira do Kuwait e o mundo entendia que aquela passagem era assunto de civilização, não de mercado spot. Quatro décadas depois, com uma frota naval encolhida, aliados europeus incapazes de projetar poder além do próprio porto e sanções que funcionam mais como propaganda do que como coação, o recado que Teerã recebeu foi claro: podem apertar o cano quando quiserem, ninguém vai fazer nada além de emitir nota de repúdio.

Enquanto isso, no Brasil, os iluminados do Planalto seguem convencidos de que política energética é escolher qual estatal vai receber o próximo aporte bilionário e qual refinaria vai ser sacrificada no altar da agenda ambiental estrangeira. A Petrobras, que poderia estar surfando essa disparada com margem histórica, é usada como ferramenta de contenção de preço interno, como se segurar bomba de gasolina resolvesse o problema de fundo, que é a insegurança geopolítica global sobre o insumo mais crítico da economia moderna. Segura no varejo, vaza no atacado, e a conta reaparece em inflação de alimentos, em custo de frete, em juro alto para conter a inflação que o próprio governo ajudou a criar.

O que o mercado de fretes está gritando, e os ministros da Fazenda de meio planeta fingem não ouvir, é que o preço da energia barata sempre foi subsidiado por músculo militar, por diplomacia dura e por respeito à propriedade privada dos produtores. Retirados os três pilares, sobra o que se vê agora: um milhão de dólares por dia para atravessar um corredor de água que deveria ser tão trivial quanto atravessar uma ponte. Cada centavo dessa tarifa é a fatura atrasada de decisões que pareciam sofisticadas nos gabinetes e se revelam catastróficas no posto de combustível.

A civilização que terceiriza sua segurança energética a regimes que a odeiam merece exatamente o pedágio que está pagando. E vai pagar mais caro ainda, porque quem cobra US$ 1 milhão hoje já está calculando quanto pode cobrar amanhã, sabendo que do outro lado não há mais ninguém disposto a dizer não.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.