A notícia chega embrulhada em papel de presente: a Tata Steel, gigante siderúrgica indiana, recebeu nota 68,3 da tal SES ESG Research, e o mercado deve aplaudir de pé porque agora a empresa é oficialmente virtuosa, sustentável, responsável e todos os adjetivos que fundos de pensão europeus precisam ouvir antes de destravar planilha. Quer dizer, uma empresa que derrete minério de ferro a 1.500 graus, queima carvão coque em volumes industriais e emite CO2 como qualquer siderúrgica do planeta, ganha selo verde porque preencheu formulário direito. E ninguém, absolutamente ninguém no noticiário econômico, para para perguntar o óbvio: quem é a SES ESG Research, quem paga o salário dos avaliadores, e por que uma empresa privada precisa de nota escolar de uma agência privada para ter acesso a capital que deveria fluir livremente conforme critérios de risco e retorno.
Olha, o esquema é geometricamente belo na sua desonestidade. Você cria uma agência de avaliação, define critérios subjetivos travestidos de científicos, cobra da empresa avaliada pelo trabalho de avaliá-la, e depois vende o relatório para fundos que precisam justificar mandatos ESG aos seus cotistas. Cada elo da cadeia fatura. A empresa avaliada paga para ser avaliada, o avaliador fatura para avaliar, o fundo cobra taxa premium por gerir capital ESG, e o consumidor final paga aço mais caro porque toda essa liturgia burocrática precisa ser custeada por alguém. Adivinha por quem. Não é pelo consultor de sustentabilidade que ganha 40 mil por mês para carimbar planilha.
Me diz uma coisa: o que exatamente 68,3 significa? É bom, é ruim, é medíocre? Comparado a que? A nota é composta por quantas variáveis, com que pesos, definidos por quem? A resposta honesta é que ninguém sabe ao certo, porque metodologia ESG é caixa preta protegida por copyright e o mercado inteiro concordou em fingir que sabe do que está falando. É a mesma dinâmica das antigas indulgências vendidas na Europa medieval, o pecador pagava para lavar a alma e a instituição vendedora do perdão lucrava com o pecado que ela mesma catalogava. Trocamos padre por consultor, indulgência por relatório ESG, e continuamos pagando para nos sentir bons.
O detalhe mais escandaloso, que ninguém no jornalismo econômico brasileiro vai apontar, é que esse arranjo não emergiu do mercado livre. Foi imposto de cima para baixo por burocratas de organismos internacionais, bancos centrais europeus, gestoras trilionárias de Wall Street que decidiram, sem consultar acionistas nem consumidores, que capital só flui para quem tem selo. Uma empresa que produz aço de qualidade, gera empregos reais, paga dividendos consistentes e atende demanda genuína pode ser preterida em favor de uma empresa que produz metade disso mas tem melhor departamento de sustentabilidade. Chamam isso de progresso. O nome correto é distorção artificial de preços por decreto oligárquico, o que costumava se chamar mercantilismo antes de virar moda chique.
Enquanto isso, o siderúrgico brasileiro paga imposto sobre imposto, energia mais cara do continente, encargo trabalhista bizantino e ainda precisa competir com um concorrente indiano que ganhou selo verde. A Tata Steel opera em país que queima carvão como se não houvesse amanhã, mas cumpriu tabela e ganhou nota. A CSN, a Usiminas, a Gerdau podem ter operações mais limpas em termos absolutos e serem punidas por não terem contratado a consultoria certa. Isso não é sustentabilidade, é geopolítica travestida de ecologia, e o Brasil, como sempre, está do lado errado da mesa de negociação.
No fim das contas, a nota 68,3 diz muito mais sobre o estado de degradação do capitalismo global do que sobre a Tata Steel. Vivemos numa economia onde produzir valor real vale menos que produzir narrativa aceitável, onde o carimbo importa mais que o produto, onde o consultor de compliance ganha mais que o engenheiro de processo. Uma civilização que premia a apresentação e pune a substância está apenas assinando lentamente sua própria certidão de irrelevância. E o pior é que aplaude enquanto assina.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.