A notícia chega vestida de rotina de Wall Street. A TD Cowen reiterou recomendação de compra para as ações da Eli Lilly e elevou o preço-alvo para US$ 1.250, embalada pela mais recente aprovação regulatória saída da FDA. O analista escreve, o terminal Bloomberg pisca, o algoritmo comprador engatilha, e ninguém no noticiário econômico se dá ao trabalho de perguntar a coisa óbvia: por que uma decisão de burocrata em Maryland move dezenas de bilhões de dólares em capitalização de mercado em questão de horas?
A resposta está escondida à vista de todos. O sistema de aprovação de medicamentos americano, vendido há décadas como escudo do consumidor contra a ganância corporativa, funciona na prática como o mais eficiente cartório de barreiras de entrada já inventado pelo capitalismo de compadrio. Quanto mais caro, longo e labiríntico o processo, menos concorrentes conseguem atravessá-lo. Adivinhe quem tem exército de advogados regulatórios, ex-diretores da agência no conselho e caixa para financiar dez anos de ensaios clínicos. Não é a startup de biotecnologia do Texas. É exatamente a Eli Lilly, a Novo Nordisk, o clube das meia dúzia de gigantes que ditam preço porque o Estado gentilmente removeu do caminho quem poderia ter apertado suas margens.
Siga o dinheiro e o desenho fica constrangedor. O contribuinte americano financia a pesquisa básica nas universidades via NIH. A empresa pega o conhecimento subsidiado, patenteia a molécula, atravessa a peneira regulatória que os menores não conseguem pagar, e depois cobra o preço que quiser porque o Medicare está proibido por lei federal de negociar valores como faria qualquer comprador racional. É privatização do lucro, socialização do risco e monopolização do acesso, tudo embrulhado no discurso de "inovação". Quando o preço-alvo sobe para US$ 1.250, o que subiu de verdade não foi a eficácia terapêutica; foi a confiança de que o arranjo político continua de pé.
O engraçado é que ninguém no telejornal econômico consegue enxergar isso, porque enxergar exigiria admitir que a fronteira entre regulador e regulado sumiu há tempos. Os diretores da FDA saem para consultorias que atendem as farmacêuticas. Os executivos das farmacêuticas entram para comitês consultivos da FDA. O congressista que fiscaliza recebe doação de campanha de quem deveria estar fiscalizando. Chamam isso de governança. O nome antigo, mais honesto, era captura.
E há o que não se vê, que é sempre a parte mais cara da conta. Cada bilhão que o mercado adiciona à Eli Lilly hoje é, em algum grau, um bilhão que não foi para o laboratório menor que desistiu, para o genérico que nunca chegou, para o paciente que pagou duas vezes, uma no imposto que financia o Medicare e outra no coparticipação do medicamento que o Medicare compra sem poder negociar. O relatório da TD Cowen não menciona nada disso, claro. O relatório fala em pipeline, em margem operacional, em multiplicador. É como um crítico gastronômico elogiando o sabor do prato sem perguntar de onde veio a carne.
No fim, o que a alta do preço-alvo comunica não é sobre remédios. É sobre a estrutura de poder que os produz. Toda vez que um regulador carimba uma aprovação e a ação dispara, o que o mercado está precificando não é ciência, é acesso privilegiado. Enquanto o consumidor americano continuar pagando três vezes o preço europeu pelo mesmo comprimido, e o brasileiro continuar esperando dois anos a mais para receber a mesma molécula porque a ANVISA importa a burocracia americana sem importar o mercado americano, o jogo continua rendendo. US$ 1.250 por ação é o valor de mercado da barreira, não do medicamento.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.