A Tees Valley Lithium acaba de receber uma oferta de £18,3 milhões do governo do Reino Unido para tocar sua refinaria de hidróxido de lítio no nordeste inglês, e o comunicado veio embrulhado no papel de presente habitual: segurança energética, transição verde, empregos regionais, cadeia de suprimentos soberana. É o mesmo discurso que os britânicos ouviram quando Londres financiou os estaleiros que faliram, as siderúrgicas que faliram, as montadoras que faliram e a British Leyland, que faliu tantas vezes que virou piada nacional. A única coisa nova é a palavra lítio.

Repare no truque. Se o projeto fosse rentável, os fundos de private equity de Londres, os sauditas, os coreanos, os chineses e os americanos estariam brigando para colocar dinheiro. Não estão. Quando o capital privado hesita e o Estado avança de peito aberto, isso não é visão estratégica, é o mercado te avisando gentilmente que o retorno esperado não paga o risco. O contribuinte britânico entra justamente onde o investidor profissional recusou entrar, e entra pagando prêmio, sem due diligence, sem cláusula de saída e sem ninguém para demitir quando der errado.

O que se vê é a manchete bonita sobre 300 empregos em Teesside e o discurso sobre reduzir dependência da China. O que não se vê é o dinheiro que foi tirado de milhares de pequenas empresas via imposto para bancar a aposta de um burocrata em Whitehall. O padeiro de Newcastle que não conseguiu financiamento para trocar o forno pagou parte da conta. A mãe solteira de Liverpool que teve o benefício cortado pagou parte da conta. Cada libra que o governo entrega a um projeto escolhido a dedo é uma libra que não existe mais para os milhões de projetos que ninguém em Londres tem competência para enxergar.

E existe uma razão técnica pela qual isso sempre dá errado, sempre. Nenhum ministro, por mais bem-intencionado, tem a informação dispersa que só o sistema de preços consegue agregar. O preço do lítio hoje reflete a decisão simultânea de milhões de agentes no mundo inteiro sobre demanda de baterias, custo de extração, avanços em química de estado sólido, geopolítica do Chile e da Austrália, subsídios chineses, política monetária americana. Nenhum funcionário do Departamento de Energia e Segurança Energética consegue processar isso. Ele chuta. E chuta com dinheiro dos outros, o que é o pior tipo de chute, porque quem chuta não sente a dor da bola perdida.

Siga o dinheiro, aliás, que a fotografia fica mais nítida. Toda vez que o Tesouro britânico anuncia um subsídio industrial verde, aparece do outro lado uma constelação previsível de consultores contratados para escrever o pedido, escritórios de advocacia especializados em captura de subsídio, ex-ministros que agora sentam em conselhos, e fundos que estruturaram a operação sabendo que a garantia soberana estava vindo. O lucro é privado e distribuído entre iniciados. O prejuízo, quando vier, é socializado entre quem nunca ouviu falar da Tees Valley Lithium e jamais dirigirá um carro elétrico.

O mais grotesco é a solenidade com que a coisa é vendida. Chamam de política industrial, de reindustrialização, de resposta ao Inflation Reduction Act americano, de estratégia. É gastança com verniz técnico. Se hidróxido de lítio britânico fosse competitivo, o mercado já teria construído a refinaria. Se não é competitivo, torrar £18 milhões de contribuinte não o torna competitivo, apenas mantém o cadáver respirando por aparelho até a próxima eleição, quando pedirão mais £50 milhões alegando que precisam apenas de mais um empurrãozinho. Sempre mais um. É como pescador viciado: a próxima libra é a que vai fisgar o peixe.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.