O espetáculo tem sempre a mesma coreografia. Uma plataforma estrangeira, que passou anos vendendo a imagem de bastião da privacidade e da liberdade de expressão, senta na antessala de um tribunal brasileiro e apresenta, de gravata e sorriso amarelo, o plano detalhado de como pretende policiar seus próprios usuários nas eleições de 2026. Chamam isso de combate à desinformação. É um nome bonito para uma prática velha como o mundo, a saber, curvar a espinha antes que o cassetete desça. E o mais divertido é que a imprensa noticia o gesto como se fosse virtude cívica, quando é apenas a versão digital do camponês medieval entregando a colheita ao senhor feudal para não ter o celeiro incendiado.
Vejamos o silogismo, porque ele é constrangedor de tão simples. Se combater desinformação significa remover conteúdo, e remover conteúdo significa decidir o que é verdadeiro e o que é falso, então a plataforma se transforma no árbitro da verdade eleitoral por delegação de um tribunal que não foi eleito para isso. A conclusão é aritmética, não retórica. Criou-se, à margem da Constituição e da vontade popular, um novo poder editorial concentrado, uma redação central que decide o que milhões de brasileiros podem e não podem ler durante o único momento em que a política supostamente devolve a palavra ao povo. Chama-se isso de democracia protegida. O adjetivo, como sempre, mata o substantivo.
Sigamos o dinheiro, que é o esporte mais honesto que existe. A plataforma não faz nada disso de graça, ainda que aparente. O custo do compliance eleitoral, das equipes de moderação, dos algoritmos de detecção, dos advogados que redigem esse tipo de plano de submissão, tudo isso vai para a planilha operacional. E planilha operacional, no fim do mês, se converte em anúncio mais caro, dado vendido, comissão de canal, taxa de premium. O usuário que se imagina cliente é, na verdade, o produto, e agora é um produto com coleira reforçada. Do outro lado do balcão, o tribunal ganha o que sempre quis, que é o poder de regular o discurso sem precisar aprovar uma única lei no Congresso. Terceiriza a censura para o particular e mantém as mãos limpas para a foto.
Há um detalhe histórico que os entusiastas da moderação industrial preferem esquecer. Toda vez que um poder central resolveu decidir o que era spam, o que era conta falsa, o que era conteúdo ilícito em ano eleitoral, o critério real acabou sendo sempre o mesmo, incomodou o palácio, é ilícito, elogiou o palácio, é jornalismo. A rede que confisca perfis por engano descobre milagrosamente que os erros se concentram num só lado do espectro. As contas suspensas por robôs pertencem, por coincidência cósmica, quase sempre aos que criticam quem manda. E quando alguém reclama, a resposta é a mesma dos burocratas de todos os séculos, houve um equívoco, estamos revisando, obrigado por sua paciência. A paciência, entenda, é sempre do lesado.
O truque semântico merece uma reverência pela ousadia. Chamam de conteúdo ilícito aquilo que, até ontem, era chamado de opinião incômoda. Chamam de desinformação aquilo que, examinado com honestidade, é frequentemente informação inconveniente. E chamam de proteção da democracia o processo pelo qual o cidadão comum perde o direito de errar, de exagerar, de fazer piada de mau gosto, de repassar boato, tudo aquilo que sempre foi o barro sujo com que se molda a vida pública real. Aristocratas de toga imaginam que se pode ter debate político sem baixaria, discurso livre sem risco, eleição sem confusão. É a fantasia iluminada de sempre, o povo purificado pela tutela, o rebanho protegido do próprio balido.
No final, resta a pergunta que ninguém no auditório quer ouvir. Quem paga essa festa toda de moderação, algoritmos, relatórios trimestrais, reuniões técnicas com o tribunal, planos apresentados em power point com fonte serifada. Paga o usuário, que troca liberdade por conveniência sem sequer perceber a transação. Paga o eleitor, que recebe uma versão higienizada da realidade e depois estranha que o resultado nas urnas não bata com a percepção nas ruas. E paga, principalmente, o próprio conceito de eleição, que existia justamente para arbitrar o desacordo público e agora vira ritual encenado sob a supervisão de tutores que sabem, antes de qualquer voto, quais opiniões merecem circular. Quem recebe é fácil, o de sempre. O poder que se blinda contra a crítica, sob o pretexto piedoso de nos proteger dela.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.