A frase que resume o esquema é de uma banalidade quase cômica: tem que dar um jeito. Foi assim, com o vocabulário torto do compadrio empresarial brasileiro, que o Banco Master transformou o próprio balanço numa oficina de falsificação industrial. Documentos da Polícia Federal descrevem uma linha de montagem burocrática dedicada a fabricar recebíveis inexistentes, garantias infladas e contratos fictícios que serviam de lastro para captações bilionárias. Não estamos diante de um deslize contábil, de uma criatividade fiscal ousada, de um erro de auditoria. Estamos diante de uma falsificação sistemática, planejada, executada com a frieza de quem sabia exatamente o que fazia e para quem estava fazendo.
A pergunta que ninguém do noticiário oficial quer formular com honestidade é a mais óbvia: quem comprava esses papéis podres? A resposta desmonta o teatro. Fundos de pensão de estatais, tesourarias de bancos médios, investidores atraídos pelo canto da sereia do CDB com rendimento acima do mercado, todos alimentados por uma engrenagem regulatória que finge fiscalizar enquanto assina embaixo. O Fundo Garantidor de Créditos, essa ficção mutualista vendida como seguro contra tempestades, funciona na prática como socialização das perdas privadas: o pequeno correntista de um banco sério paga, via contribuição compulsória do seu próprio banco, o prejuízo deixado pela aventura alheia. É o velho truque de nacionalizar o desastre depois de privatizar a farra.
Há uma lógica de ferro operando aqui, e ela não tem nada de acidental. Um sistema bancário que opera sob reserva fracionária, tutelado por um banco central que imprime liquidez sob demanda e resguardado por um seguro compulsório de depósitos, é um sistema desenhado para produzir exatamente esse tipo de aventureiro. Retire o risco real do jogo e você retira a única disciplina que impede o jogador de trapacear. O incentivo para inventar garantia falsa cresce na proporção exata em que o custo do fracasso é jogado no colo do próximo. E o próximo, invariavelmente, somos todos nós, seja pelo imposto direto, seja pela inflação que corrói o poder de compra quando o Banco Central sai correndo para tapar o buraco.
O detalhe saboroso, porque toda tragédia bancária brasileira tem seu momento de humor negro, é o desfile de figurões que orbitavam a instituição como se ela fosse uma joia da coroa nacional. Ex-ministros consultando, ex-diretores do Banco Central abençoando, políticos de todas as tribos aparecendo em jantares, palestras, patrocínios. A porta giratória entre o regulador e o regulado gira tão azeitada que já não se sabe mais onde termina o fiscal e começa o fiscalizado. Quando o mesmo sujeito que redigia a norma na segunda-feira aparece cobrando honorários para driblá-la na quarta, o resultado previsível é este: uma fábrica de documento falso operando em plena luz do dia, com CNPJ, auditoria contratada e selo de governança.
A narrativa oficial tentará vender o episódio como caso isolado, maçã podre no cesto saudável, falha pontual a ser corrigida com mais regulação, mais fiscalização, mais Estado. É a receita infalível: o incêndio provocado pelo bombeiro serve de pretexto para contratar mais bombeiros. Cada nova crise bancária termina com um pacote de medidas que aumenta o poder discricionário do regulador, encarece a operação dos bancos honestos e, invariavelmente, prepara o terreno para o próximo Vorcaro, agora mais bem assessorado juridicamente para cumprir as novas regras enquanto viola o espírito delas. A doença é vendida como remédio e cobra pelo tratamento.
Restam, ao fim, as duas perguntas que abrem e fecham qualquer análise honesta deste país: quem pagou e quem recebeu? Pagaram os cotistas dos fundos que compraram lixo empacotado como grau de investimento, os contribuintes que sustentam a máquina regulatória inútil, os depositantes de bancos sérios que financiarão o resgate via FGC, e o cidadão comum que verá o crédito encarecer porque o sistema inteiro ficou mais desconfiado. Receberam os intermediários das operações fraudulentas, os assessores bem pagos para maquiar balanço, os políticos que aceitaram doação, palestra, jantar, e o próprio dono do banco, que por anos viveu como príncipe com dinheiro que nunca foi dele. O resto é literatura para consumo dos ingênuos.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.