A TempraMed anunciou o encerramento de uma captação de US$ 1,18 milhão via emissão de debêntures conversíveis e units, e a notícia foi publicada com o tom solene de quem acaba de destravar uma rodada de série C no Vale do Silício. Olha, o valor bruto não diz nada sozinho, dinheiro é ferramenta, não virtude, e nenhuma empresa merece elogio ou desprezo apenas por quanto levantou. O que interessa é o contexto, e o contexto é constrangedor: numa economia funcional, uma companhia de dispositivos médicos com produto real captaria esse valor num almoço, sem instrumento híbrido, sem estrutura de conversão, sem a parafernália jurídica que transforma cada captação num tratado de Vestefália.
Debênture conversível com units é o que sobra quando o investidor não confia o suficiente para entrar como sócio direto e o empreendedor não tem caixa para pagar dívida pura. É o casamento arranjado do mercado brasileiro, ninguém está apaixonado, todo mundo está ali porque a alternativa era pior. O instrumento existe no mundo inteiro e tem sua utilidade legítima, mas quando vira padrão para captações pequenas de empresas operacionais, o recado é claro: o custo de capital no Brasil é tão perverso que até uma tomada de fôlego precisa vir embrulhada em derivativo. Quer dizer, o problema não está na TempraMed que fez o que era possível fazer, está no país que tornou o possível tão pequeno.
Siga a trilha do dinheiro e o retrato fica pior. Por que uma empresa brasileira precisa captar em dólar? Porque a moeda local é uma promessa desgastada, corroída por décadas de impressão para financiar gastança, e ninguém sério aceita mais fazer aposta de longo prazo em real sem hedge cambial embutido. O investidor que entra numa debênture conversível denominada em dólar está dizendo, sem dizer, que não confia na estabilidade monetária do emissor da moeda. E quem é o emissor? O mesmo governo que passa a semana explicando na televisão por que a inflação subiu de novo e por que a culpa é do supermercado, do clima, do capitalismo, de qualquer coisa exceto da impressora ligada no fundo do prédio.
Existe uma cegueira coletiva em celebrar essas captações modestas como se fossem sinal de vitalidade do ecossistema. O que se vê é uma empresa fechando rodada. O que não se vê é o cemitério de companhias que precisariam de estruturas simples, empréstimo bancário decente, mercado de capitais líquido, tributação civilizada, e que morreram antes de descobrir que existiam debêntures conversíveis. O que não se vê é o empreendedor que desistiu porque o custo regulatório de emitir um papel é maior que o próprio papel. O que não se vê é o capital estrangeiro que passou reto porque a insegurança jurídica cobra pedágio mais alto que a taxa de retorno oferecida.
E o mais delicioso do teatro é a linguagem. Comunicado oficial fala em fortalecimento de estrutura, expansão operacional, marco estratégico, todo o vocabulário genérico que serve para qualquer captação de qualquer tamanho em qualquer setor. Traduzindo do corporativês para o português: a empresa conseguiu sobreviver mais alguns trimestres. Isso é legítimo, sobreviver é a primeira obrigação de qualquer negócio, mas ninguém precisa fingir que sobrevivência é conquista épica. A epopeia é fabricada porque o mercado local aprendeu que precisa vender narrativa junto com o papel, senão o papel não sai.
Me diz uma coisa, quando US$ 1,18 milhão precisa de nota à imprensa, o que isso revela sobre o tamanho médio das operações que efetivamente saem do papel neste país? Revela que o Brasil transformou seu mercado de capitais numa feira de artesanato, cada peça única, cada transação sob medida, cada emissão precisando de advogado, estruturador, distribuidor e um pequeno milagre. Enquanto isso, do outro lado do mundo, uma startup de biotech capta o mesmo valor em quinze minutos de call com um family office, sem debênture, sem unit, sem comunicado, sem festa. A diferença não está no talento dos empreendedores, o Brasil não faltou aos talentos, faltou aos empreendedores um país que não punisse a produção. Enquanto celebrarmos migalha como banquete, continuaremos servindo migalha e chamando de festim.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.