A Tencent, dona do WeChat, acaba de lançar um aplicativo de pagamento móvel voltado exclusivamente para visitantes estrangeiros na China, permitindo que o turista europeu, americano ou brasileiro pague o táxi, o dim sum e a passagem de metrô sem precisar carregar yuan em espécie. A imprensa financeira noticiou o feito com aquele tom de admiração bovina que reserva para tudo que sai de Pequim, como se estivéssemos diante de mais uma proeza da eficiência oriental. Ninguém, claro, fez a pergunta que importa: por que um regime que trata dinheiro em papel como ameaça à segurança nacional está tão empenhado em digitalizar até o cafezinho do estrangeiro?

Olha, quando um governo que já baniu criptomoedas, que já implantou o yuan digital com rastreabilidade total, que já pontua cidadãos por comportamento social, decide abrir as portas do seu sistema de pagamento para o gringo, não está fazendo cortesia diplomática. Está estendendo o tapete vermelho da vigilância. Cada transação registrada é um dado. Cada dado é um perfil. Cada perfil é uma alavanca. O turista que baixa o app acha que está resolvendo o problema prático de pagar um refrigerante em Xangai; na verdade, está entregando de bandeja o mapa completo de seus deslocamentos, hábitos de consumo, contatos comerciais e preferências pessoais a um aparato estatal que faz da coleta de informação uma religião de Estado.

Quer dizer, o mais engraçado é que a mesma imprensa que se escandaliza quando uma big tech americana ajusta um algoritmo aplaude de pé quando um conglomerado chinês, com o Partido Comunista literalmente sentado no conselho, oferece um serviço financeiro. A Tencent não é uma empresa privada no sentido em que se entende esse termo em qualquer lugar civilizado; é um braço operacional do regime, com célula partidária interna, com obrigação legal de entregar dados ao governo quando solicitado, com CEO que sabe muito bem o que aconteceu com o Jack Ma no dia em que ousou reclamar do regulador. Isso não é capitalismo. Isso é mercantilismo de partido único vestido com terno de Silicon Valley.

Me diz uma coisa, quem ganha com essa manobra? O turista ganha uma conveniência que ele nem tinha, porque cartão de crédito internacional sempre funcionou razoavelmente bem na China. A Tencent ganha comissão de transação, mas cifrão nesse volume é pinto para uma empresa que fatura centenas de bilhões. O comércio local ganha alguma coisa em turismo, sim, mas o turismo já vinha voltando sem app nenhum. Quem realmente ganha é o Estado chinês, que agora tem visibilidade granular sobre cada estrangeiro que pisa em solo continental, e ainda faz isso com o entusiasmo voluntário da vítima, que baixa o aplicativo sozinha, aceita os termos sozinha, e sai por aí achando que fez um bom negócio. A conveniência é sempre a isca; a coleira vem depois.

E o que não se vê nessa história é o mais importante. Não se vê o precedente que está sendo estabelecido, no qual sistemas de pagamento estatais capturam usuários estrangeiros e criam dependência transacional. Não se vê o efeito de longo prazo na diplomacia econômica, quando milhões de europeus e sul-americanos estarão amanhã com histórico financeiro rastreado por Pequim. Não se vê a normalização do modelo, no qual a fusão entre governo e plataforma privada deixa de ser exceção autoritária para virar padrão global aceitável. Cada país que celebra essa integração está, sem perceber, votando pela adoção do modelo chinês nas próprias fronteiras. E quando o Banco Central Europeu ou o Federal Reserve resolverem lançar seus CBDCs com o mesmo grau de rastreabilidade, ninguém vai poder reclamar, porque já achou tudo lindo quando o Partido fez primeiro.

A verdade nua e crua é que dinheiro em espécie é o último bastião da liberdade financeira do cidadão comum, e há três décadas está sendo estrangulado em todo lugar sob desculpas variadas, combate à lavagem, praticidade, higiene pós pandemia, agora hospitalidade ao turista. Quem controla como você paga controla o que você pode comprar, de quem você pode comprar, quando você pode comprar e, no limite, se você pode comprar. A China está apenas alguns anos à frente na estrada que o resto do mundo está pavimentando com entusiasmo suicida. O turista que hoje sorri ao pagar o pato laqueado com QR code chinês é o mesmo que amanhã vai se perguntar por que seu cartão foi bloqueado no supermercado do bairro por ter assinado uma petição errada. A digitalização do dinheiro nunca foi sobre eficiência; sempre foi sobre poder.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.