A Tesla marcou 1º de outubro para apresentar o Roadster de nova geração, com direito ao slogan "Pronto para lançamento" e o cardápio habitual de insinuações sobre fusão com a SpaceX. Convém lembrar, sem cerimônia, que este carro foi anunciado em novembro de 2017, com entregas prometidas para 2020, depósitos de cinquenta mil dólares recolhidos na hora, e até hoje ninguém dirigiu um. Estamos falando de quase uma década de prazo dilatado, o que em qualquer outro setor seria caso de polícia, mas no ecossistema Musk é chamado de visão.
Olha, a genialidade aqui não está no motor elétrico nem no foguete SpaceX pendurado embaixo do chassi, promessa que soa mais roteiro de Hollywood que engenharia. A genialidade está em ter descoberto que o produto principal da Tesla nunca foi carro, foi expectativa. Cada evento desses funciona como injeção de adrenalina no papel negociado em bolsa, cada tuíte enigmático move bilhões de dólares em capitalização, e o carro em si virou um adereço de palco, uma desculpa cenográfica para o verdadeiro negócio, que é a manufatura de narrativa.
Siga o dinheiro e a coisa fica constrangedoramente clara. Quem colocou cinquenta mil dólares em 2017 financiou, sem juros e sem garantia, uma empresa que usou aquele caixa para outras coisas enquanto o dono construía foguete, comprou rede social, lançou robô humanoide dançarino e prometeu táxi autônomo. O comprador do Roadster virou credor involuntário de um portfólio de aventuras que ele nunca aprovou. E o mercado, longe de punir, aplaude, porque aprendeu que a Tesla não vale pelo que entrega, vale pelo que consegue continuar prometendo.
Há um detalhe que ninguém quer discutir em voz alta, e é o subsídio permanente que sustenta essa festa. Créditos regulatórios de carbono, incentivos fiscais federais e estaduais nos Estados Unidos, isenções na China, benesses europeias, e no Brasil o eterno cortejo por regime especial de importação. Sem essa mamata verde travestida de política ambiental, boa parte da margem operacional da empresa evapora. O consumidor comum, aquele que dirige um popular a combustão, paga imposto para subsidiar o brinquedo elétrico do sujeito rico que quer parecer ecológico no semáforo de Alphaville.
E a fusão com a SpaceX, deixada estrategicamente vazando pelas frestas do comunicado, é o velho truque do ilusionista que precisa manter a plateia olhando para a mão errada. Enquanto o mercado especula se o Roadster vai levitar com propulsores de foguete, ninguém pergunta por que uma empresa que vale mais de um trilhão de dólares em bolsa vende menos carros por trimestre que uma montadora coreana de porte médio. Ninguém pergunta por que a promessa de direção totalmente autônoma, feita anualmente desde 2016, continua sendo promessa. Ninguém pergunta pelos depósitos de 2017.
O evento de 1º de outubro vai acontecer, o palco vai brilhar, algum protótipo vai deslizar sob luz azul, a ação vai subir por três dias, e depois voltará a rotina. O Roadster de nova geração, se um dia existir de verdade em concessionária, será uma nota de rodapé num negócio que já provou não precisar dele para prosperar. O que estamos vendo é o triunfo do marketing sobre a engenharia, do carisma sobre o contrato, e da fé sobre a nota fiscal. Uma economia inteira aprendendo que a promessa vale mais que a entrega é uma economia que, mais cedo ou mais tarde, cobra a fatura acumulada.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.