A Teva Pharmaceutical apareceu na conferência global de saúde do Barclays com o discurso ensaiado do executivo que sabe onde estão os microfones. O plano de crescimento, batizado com aquele nome corporativo que soa a manual de autoajuda, estaria "ganhando ritmo", os genéricos complexos avançariam, os biossimilares chegariam no prazo, e o pipeline de inovação seria a promessa que justifica o múltiplo. Analistas anotaram, o papel oscilou, e ninguém na sala perguntou a única coisa que importa: quem paga por esse ritmo todo?

A resposta está escondida na letra miúda de qualquer relatório do setor farmacêutico global. A Teva, como toda gigante do ramo, opera num mercado que de livre tem apenas o nome. Cada molécula genérica que ela vende passou por um sistema de patentes desenhado por lobistas, foi aprovada por uma agência regulatória que cobra taxas milionárias por processo, e será comprada em volume por sistemas públicos de saúde que negociam com o dinheiro alheio. O consumidor final, o sujeito que engole o comprimido, nunca esteve na mesa. Ele só recebe a fatura, seja no imposto, seja no plano de saúde, seja no preço da farmácia da esquina.

Vale seguir o dinheiro devagar. A companhia carrega uma dívida herdada da compra da Actavis em 2016, transação que pareceu genial no PowerPoint e virou pesadelo no balanço. Para pagar o que deve, precisa crescer, e crescer no setor farmacêutico não significa inventar cura para o câncer, significa capturar mais linhas de compra pública, entrar em mais formulários hospitalares subsidiados, brigar por mais nichos protegidos por barreiras regulatórias que ela mesma ajudou a desenhar através de décadas de lobby em Washington e Bruxelas. O plano de crescimento apresentado ao Barclays é, no fundo, um plano de otimização de rendas garantidas pelo Estado.

Note a ironia da coisa. Quando um pequeno laboratório tenta lançar um genérico realmente barato, tropeça em processos regulatórios que custam dezenas de milhões e demoram anos. Quando o gigante já instalado lança o mesmo produto, atravessa o mesmo processo com departamento jurídico dedicado, capital de sobra e relacionamento cultivado com os reguladores. A regulação que se vende como proteção do paciente é, na prática, o fosso que protege o castelo dos titulares. Barreira de entrada disfarçada de zelo sanitário. Todo economista honesto sabe disso, todo executivo do setor também, e todo político finge que não.

Enquanto isso, o discurso do "medicamento acessível" pavimenta a próxima rodada de intervenção. Governos anunciam controle de preços, listas positivas, compras centralizadas, e o resultado é sempre o mesmo: menos concorrência real, mais concentração de mercado, e um punhado de multinacionais bem posicionadas fazendo desfile em conferências de banco de investimento. O paciente ganha o rótulo de beneficiário do sistema, e paga três vezes, no imposto que financia a compra pública, no imposto que sustenta a agência reguladora, e no preço final que já embutiu todos os custos de conformidade que o próprio sistema criou. Chamam isso de saúde pública. É subsídio cruzado com relações públicas por cima.

Que a Teva cresça, ótimo. Que gere retorno ao acionista, melhor ainda. O problema não é a empresa fazer seu trabalho, o problema é o arranjo institucional que confunde lucro de mercado com renda extraída pelo Estado e repassada a operadores privilegiados. Enquanto investidores aplaudem no Barclays, a conta continua chegando na caixa de correio de quem nunca foi consultado. E quando o próximo balanço vier melhor que o esperado, lembre-se: no jogo do capitalismo de compadrio farmacêutico, a casa nunca perde, os acionistas quase sempre ganham, e o pagador da conta é sempre o mesmo sujeito, aquele que não tem assessor de investimentos nem cadeira em conferência de banco.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.