Teva Pharmaceutical subiu ao palco da conferência de saúde do Morgan Stanley e fez o que toda multinacional farmacêutica endividada faz nesses rituais: prometeu crescimento, cortou custos no PowerPoint, falou em pipeline de biosimilares e viu a ação reagir. É a coreografia de sempre. Executivo de terno impecável, analista de banco fazendo perguntas ensaiadas, jornalista de portal financeiro traduzindo o comunicado como se fosse notícia. Ninguém, em nenhum momento, pergunta a coisa óbvia: por que uma empresa de genéricos, cujo negócio inteiro deveria ser vender remédio barato, precisa se apresentar como se fosse uma startup de tecnologia buscando múltiplo de crescimento?
A resposta está no que não se vê. O que se vê é a Teva anunciando avanços, o que não se vê é o arranjo regulatório monumental que transformou o mercado farmacêutico global numa reserva de mercado disfarçada de ciência. Cada aprovação de agência sanitária, cada extensão de patente, cada exigência de bioequivalência custa milhões e leva anos, e o efeito prático disso não é proteger o paciente, é blindar os incumbentes contra qualquer laboratório menor que ousasse fabricar o mesmo comprimido pela metade do preço. O paciente brasileiro que paga oitenta reais numa caixa de remédio que sai por três dólares na Índia está financiando, sem saber, o conforto contábil que a Teva vai vender aos analistas de Nova York.
Siga o dinheiro e a peça se abre. A indústria farmacêutica é, ao lado da bancária, a mais regulada do planeta, e não por acaso é também uma das mais lucrativas e concentradas. Regulação pesada nunca protege o consumidor pequeno, protege o produtor grande, porque só o produtor grande tem departamento jurídico para cumprir o cipoal de normas, lobby em Brasília e em Bruxelas para influenciar as próximas normas, e caixa para atravessar os anos de análise burocrática enquanto o concorrente menor quebra. Quando a Teva vai ao Morgan Stanley falar em plano de crescimento, ela não está falando em inovar mais, está falando em navegar melhor esse pântano que empresa nenhuma nova consegue atravessar.
E aí entra a piada silenciosa do setor: genéricos deveriam ser justamente o antídoto contra esse capitalismo de compadrio, o momento em que a patente cai e o preço despenca porque qualquer laboratório pode fabricar. Só que, na prática, o mercado de genéricos virou oligopólio dos mesmos, e a Teva é a maior de todas. Quando um remédio sai de patente, quem entra não é o pequeno laboratório concorrente, é a mesma meia dúzia que já dominava o mercado de referência, agora vestida de alternativa barata. O consumidor troca o monopólio da marca pelo oligopólio do genérico, e continua pagando caro, só que com a satisfação psicológica de achar que economizou.
Enquanto isso, o discurso do executivo na conferência é sempre o mesmo, disciplina financeira, foco em margem, redução de alavancagem, pipeline robusto. Traduzindo do corporativês: vamos cortar operação, vender ativo não estratégico, aumentar preço onde a regulação permitir e torcer para que a próxima molécula de sucesso apareça antes que a dívida vença. É o modelo de negócio da fadiga, sustentado não pela superioridade do produto, mas pela impossibilidade legal de qualquer novo entrante contestar o incumbente. E o mercado aplaude, porque o mercado de ações há muito deixou de premiar quem cria valor e passou a premiar quem administra bem a captura regulatória.
Fica a pergunta que ninguém no auditório do Morgan Stanley teve coragem de fazer: se o remédio genérico existe justamente para ser barato, por que precisamos de conferência de investidor para saber se a fabricante vai crescer? A resposta é que o setor inteiro se tornou uma engrenagem de extração, remédio caro no balcão, ação valorizada no pregão, contribuinte pagando via sistema público, paciente pagando via bolso, e no meio dessa cadeia toda uma indústria que, se dependesse do livre mercado de verdade, teria margem de padaria. A próxima vez que alguém disser que a saúde precisa de mais regulação, lembre-se de quem realmente ganha quando a regulação aumenta.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.