A regra de Wall Street é conhecida por quem pisa no pregão há mais de dez minutos: um bull market não morre de velhice, morre de bala. Ou a economia entra em recessão, ou o banco central aperta os juros até estourar alguma coisa, geralmente um banco regional, um fundo alavancado, um país emergente, e às vezes os três juntos no mesmo trimestre. Neste momento, dizem os analistas de terno bem cortado, nenhum dos dois cenários está posto. A economia americana segue andando, o Fed segue prometendo cortes, e o S&P 500 segue fazendo máxima como se a gravidade tivesse sido revogada por decreto. O detalhe incômodo é que o risco de aperto está voltando pela porta dos fundos, e ninguém quer ligar a luz do corredor.
O ponto que os relatórios oficiais evitam mencionar é o seguinte: o que se vê é o rali, o otimismo, os múltiplos esticados, os fundos de pensão comprando índice como se fosse promoção de supermercado. O que não se vê é a razão do rali. Não é produtividade nova, não é tecnologia disruptiva de verdade em escala macroeconômica, não é revolução industrial. É liquidez. É a mesma velha história do dinheiro barato que inflou tudo por uma década e meia, foi parcialmente drenado, e agora ameaça voltar porque o mercado, mimado como filho único de bilionário, exige corte de juros como criança exige sorvete antes do jantar. E se o Fed ceder, alimenta a bolha. Se não ceder, ela desinfla. Escolha o seu veneno.
Aí entra a mecânica que os austríacos sabiam há um século e os operadores de mesa redescobrem a cada ciclo, sempre com a cara de quem viu fantasma. Expansão de crédito artificial gera investimentos que só fazem sentido enquanto o crédito é barato. Corte o crédito, e projetos que pareciam geniais viram esqueletos no balanço. Não é o aperto monetário que quebra a economia, é a farra monetária anterior que plantou empresas insustentáveis, imóveis superavaliados, dívidas soberanas absurdas, e private equity comprando padaria por vinte vezes o EBITDA. O aperto apenas revela o que já estava podre. Culpar o Fed pelo bust é como culpar o médico pelo diagnóstico do câncer que o paciente cultivou fumando três maços por dia.
Siga o dinheiro, sempre. Quem lucra com juros baixos prolongados? Grandes bancos que ganham no carry, gestoras de ativos que cobram taxa sobre patrimônio inflado, governos endividados até o pescoço que precisam rolar dívida a custo simbólico, e o cortejo habitual de lobistas que sabem exatamente qual porta bater em Washington. Quem paga a conta? O aposentado que vê a poupança sendo comida pela inflação, o assalariado que descobre que o aluguel subiu vinte por cento em dois anos, o pequeno empresário que não tem acesso ao dinheiro subsidiado dos amigos do rei. É o velho arranjo, socialização do risco e privatização do lucro, agora com verniz de política monetária técnica, gráficos coloridos e economistas de PhD explicando por que desta vez é diferente. Nunca é diferente.
A ilusão de que o Fed controla o ciclo é a maior peça de propaganda financeira do último século. O banco central não domou a economia, apenas transferiu a volatilidade para o tempo. Cada crise contida com liquidez foi uma crise adiada e ampliada. 2008 foi resolvido com dinheiro que gerou 2020, que foi resolvido com mais dinheiro que gerou a inflação de 2022, que foi combatida com juros que agora ameaçam quebrar o que a própria festa monetária construiu. É um cassino onde a casa acha que pode mudar as regras da roleta no meio da rodada, e os apostadores fingem acreditar porque continuar apostando é mais confortável que admitir que o jogo é viciado.
O touro não teme uma alta de juros, teme um ciclo inteiro, dizem. Mas o touro deveria temer algo pior: a descoberta de que ele está pastando num campo minado que ele mesmo ajudou a plantar quando aplaudiu cada rodada de estímulo, cada resgate, cada pacote emergencial. O mercado quer voar sem gravidade, e a gravidade sempre cobra a fatura, com juros compostos. A pergunta não é se o bull market vai acabar. É quantos ainda vão fingir surpresa quando acabar.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.