Quando o Estado descobre que o cidadão ainda guarda comida em casa, ele não vê uma família se organizando contra a escassez. Vê uma base tributária inexplorada. Toda vez que sobra um pedaço de pão na mesa do contribuinte, alguém de terno na capital interpreta aquilo como uma afronta pessoal, uma riqueza obscena a ser corrigida por decreto. O nome muda: contribuição, taxa, cota solidária, imposto seletivo. A mecânica é sempre a mesma: tirar de quem produziu para redistribuir entre quem carimba.
O truque semântico é infalível. Chamam de "justiça" o ato de esvaziar geladeiras alheias. Chamam de "solidariedade" a apreensão do que você comprou com seu salário já mutilado por trinta camadas de tributo. Chamam de "combate à fome" um programa que engorda burocratas e emagrece contribuintes. Follow the money: cada real arrecadado em nome do faminto passa por quinze intermediários antes de virar meio pão duro na periferia. Os outros catorze pães viraram diária, carro oficial e comissão.
A geladeira vazia do brasileiro não é acidente estatístico. É produto acabado de uma máquina que precisa de escassez para se legitimar. Um povo abastecido é um povo desobediente. Um povo faminto pede socorro ao mesmo Leviatã que o esfomeou, e agradece a migalha como se fosse banquete. O sonho do Soberano não é acabar com a miséria: é ser o único distribuidor autorizado dela. A análise e opinião são do O Algoz.
