A Transcode Therapeutics, empresa de terapias baseadas em RNA que há anos queima caixa em pesquisa clínica sem colocar um único produto na prateleira, comunicou ao mercado a saída do seu diretor financeiro e a designação de um interino para tapar o buraco. O comunicado é aquele modelo padrão que todo advogado societário conhece de cor, agradecimento formal, desejo de sucesso, transição ordenada, nada que assuste juridicamente e nada que informe efetivamente. Só que investidor experiente lê comunicado de saída de CFO como quem lê bula de remédio, presta atenção nos efeitos colaterais e não no marketing da caixa.

Existe uma regra não escrita que o mercado aprendeu na marra depois de dezenas de escândalos contábeis, quando o CFO de uma empresa em situação delicada sai sem destino anunciado, sem promoção, sem oportunidade de ouro em outra companhia, a probabilidade de haver um esqueleto no armário é diretamente proporcional ao quanto o release é vago. E o release da Transcode é vago da primeira à última linha. Nenhuma menção a próxima posição, nenhum motivo pessoal detalhado, nenhuma ponte queimada mas nenhuma ponte reconstruída também. Silêncio corporativo é uma forma de linguagem, e ela quase sempre diz a mesma coisa.

Olha, biotech de estágio clínico é um animal econômico peculiar. Não vende nada, não fatura quase nada, vive de rodadas de captação e da paciência de acionistas que apostam num futuro que pode nunca chegar. O guardião do caixa nessas empresas não é um contador, é um funâmbulo, precisa esticar cada dólar entre uma ensaio e outro, negociar com credores, orquestrar diluição sem espantar quem já está dentro, e sorrir para o auditor que pergunta sobre a premissa de continuidade operacional. Quem faz esse trabalho e sai de repente ou está exausto, ou viu algo que não quis assinar embaixo, ou recebeu proposta melhor num barco que não está afundando. Nas três hipóteses, o acionista minoritário perde.

E aqui entra a parte que ninguém quer discutir em voz alta. O ecossistema de biotechs listadas nos Estados Unidos virou nos últimos quinze anos uma máquina sofisticada de transferir dinheiro do investidor de varejo para o executivo, para o banco de investimento que estrutura as ofertas, para o escritório de advocacia que redige os contratos e para o consultor que vende esperança em PowerPoint. A promessa é sempre a mesma, cura do câncer, revolução no tratamento genético, quebra de paradigma científico. A entrega, na esmagadora maioria das vezes, é diluição atrás de diluição até o papel valer o preço da tinta que imprimiu o certificado. Não é fraude, na maioria dos casos, é apenas um jogo em que a casa tem informação assimétrica e o apostador não.

Me diz uma coisa, quantas vezes o pequeno acionista soube que a empresa estava com problema de caixa antes de o CFO sair, antes do auditor emitir ressalva, antes do preço cair oitenta por cento e a companhia anunciar oferta de ações a preço vil? Praticamente nunca. A informação flui de cima para baixo com atraso calculado, e o interino que assume o cargo geralmente tem duas funções, organizar a papelada para a próxima captação emergencial e servir de para-choque enquanto o conselho procura alguém disposto a assinar as demonstrações financeiras do próximo trimestre. É um teatro que se repete tanto que já virou gênero literário.

O que o investidor deve fazer diante disso não é pânico, é aritmética. Abrir o último 10-Q, olhar a posição de caixa, dividir pelo cash burn mensal, calcular quantos meses restam antes da próxima diluição, verificar se há convênios financeiros próximos de serem violados, checar se os ensaios clínicos têm milestones que dependem de capital adicional. A saída do CFO não causa o problema, ela apenas o revela para quem estava distraído. E a lição maior, essa vale para qualquer papel de qualquer setor, é que quando alguém que tem informação privilegiada troca o barco, o passageiro do convés precisa parar de admirar a paisagem e olhar para o horizonte, porque ali costuma estar a tempestade que o capitão já viu.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.