A TransDigm, aquela fabricante americana de componentes aeronáuticos que virou queridinha de Wall Street por cobrar preços de monopolista em peças obrigatórias, anunciou a emissão de US$ 2,5 bilhões em notas sênior garantidas com um único propósito confessado: refinanciar dívida existente. Não é para abrir fábrica, não é para contratar engenheiro, não é para pesquisar material novo. É para pagar boleto antigo com boleto novo, jogando o vencimento lá para frente e rezando para que o mundo continue funcionando com juros baixos o suficiente para o esquema não desabar.

Olha, tem um nome antigo para esse arranjo, e não é elogioso. Quando uma empresa emite dívida para pagar dívida, ano após ano, década após década, ela não é uma empresa produtiva com alavancagem tática, ela é uma máquina de extração de valor financeiro que se sustenta apenas enquanto o crédito for barato e abundante. E crédito só é barato e abundante quando o banco central, do outro lado do balcão, imprime dinheiro para segurar a taxa de juros artificialmente comprimida. Ou seja, o modelo TransDigm não é um triunfo do mercado, é um subproduto direto de duas décadas de expansão monetária que ensinou o mundo corporativo que dívida é grátis e que capital próprio é para trouxa.

Quer dizer, siga o dinheiro e veja o desenho completo. Os fundos que compram essas notas sênior garantidas ganham cupom gordo com risco supostamente baixo, porque a garantia é a própria receita monopolista da empresa em peças que a FAA obriga companhias aéreas a comprarem só dela. Os executivos da TransDigm recebem bônus milionários por engenharia financeira, não por engenharia aeronáutica. Os acionistas antigos já sacaram sua fortuna em dividendos especiais financiados exatamente por essas emissões. E quem paga o pato, no fim, é a companhia aérea que repassa para o passageiro, que é você comprando passagem cada vez mais cara sem entender direito por quê.

Me diz uma coisa: se o negócio é tão bom, por que o caixa gerado pela operação nunca é suficiente para quitar a dívida? Por que a cada vencimento surge, magicamente, uma nova emissão de valor equivalente ou maior? A resposta é desconfortável para quem gosta de acreditar em capitalismo saudável. É porque o capital, nessa dinâmica, foi extraído há muito tempo. O que sobrou é uma casca operacional carregando um esqueleto financeiro que precisa ser rolado eternamente, como aqueles impérios tardios que emitiam moeda cada vez mais aguada para pagar legionário e ainda chamavam aquilo de prosperidade.

E o mais delicioso da história é que ninguém em Wall Street trata isso como escândalo. Trata como caso de sucesso. Estuda-se TransDigm em MBA como exemplo de "criação de valor", quando o que houve foi transferência de valor: do consumidor cativo, do contribuinte que garante o Federal Reserve, do poupador que vê seu rendimento real corroído, tudo para a mesa de bônus da diretoria e o bolso dos financistas que estruturam a emissão. Não há criação, há canalização. E a canalização só funciona enquanto o encanamento monetário do banco central continuar bombeando.

A pergunta que ninguém em rede aberta faz é: o que acontece quando os juros permanecerem no patamar atual por tempo suficiente para uma dessas rolagens não fechar a conta? Não é hipótese remota, é matemática elementar. Empresas construídas para viver de refinanciamento perpétuo em ambiente de juro zero têm data de validade quando o juro deixa de ser zero. E aí não vai haver bailout que salve todo mundo, porque a próxima crise não será dos bancos, será das empresas zumbis que os bancos financiaram achando que estavam sendo espertos. TransDigm hoje emite tranquila. Amanhã descobre-se que o preço do dinheiro sempre volta, e que o almoço, esse, nunca foi de graça.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.