Antes da colheita anual, quando o fruto está maduro e a família já contava com o dinheiro do azeite para atravessar o inverno, chega o trator. Não chega sozinho, chega escoltado, chega autorizado, chega dentro de um arranjo institucional que transforma vandalismo em política de Estado. A oliveira derrubada na Cisjordânia não é um acidente de percurso do conflito, é o próprio conflito reduzido à sua forma mais honesta: alguém com o monopólio da força decidindo que a propriedade do outro não existe mais porque assim conveio ao projeto geopolítico da temporada.
Olha, uma oliveira leva entre vinte e trinta anos para começar a produzir seriamente. Algumas das que estão sendo esmagadas agora foram plantadas por bisavôs de gente que hoje é bisavô. Isso não é um pé de alface que se replanta na próxima estação, é capital acumulado ao longo de um século, é poupança viva enraizada no solo, é a única aposentadoria que aquela família jamais teve. Quando o trator passa por cima, não está destruindo madeira, está incinerando décadas de trabalho de gerações que nunca pediram nada ao Estado porque sempre souberam que o Estado, quando aparece, aparece assim.
E aqui entra a parte que ninguém quer discutir no editorial bem comportado do jornalão. Siga o dinheiro. Quem paga o combustível do trator? Quem financia a escolta armada? Quem constrói a estrada que o trator usa para chegar até o olival? Quem indeniza o motorista se algo der errado? A resposta é sempre a mesma em toda parte do mundo: o contribuinte, seja ele israelense pagando imposto lá, seja ele americano pagando ajuda militar cá, seja ele europeu pagando programa humanitário para depois tentar reconstruir o que o programa militar do vizinho destruiu. É a economia da destruição criativa, só que sem a parte criativa.
Quer dizer, se um particular derrubasse uma única árvore no quintal do vizinho, teria polícia, processo, indenização e manchete. Quando o mesmo ato é praticado com uniforme e placa oficial, vira nota de rodapé geopolítica, discussão sobre fronteiras, debate sobre segurança nacional. A mesma ação muda de natureza moral conforme a farda de quem a pratica, e é exatamente essa alquimia que permite que a pilhagem organizada continue funcionando há décadas sem que ninguém precise chamá-la pelo nome. A lei que deveria proteger propriedade virou instrumento de transferência de propriedade, e o resto é liturgia.
Me diz uma coisa, qual é o modelo econômico que sobrevive à destruição sistemática dos meios de produção do vizinho? Nenhum. O que se vê é a árvore caindo, o trator avançando, o soldado protegendo. O que não se vê é a criança que não vai comer, o comerciante que não vai vender, o transportador que não vai carregar, a prensa de azeite que vai fechar, a economia local inteira que se contrai mais um degrau. Cada oliveira derrubada é uma cadeia produtiva miniatura sendo aniquilada, e cada cadeia aniquilada é mais uma família dependente de ajuda humanitária, ou seja, mais uma família convertida à força de produtora autônoma em pedinte tutelado. É o modelo padrão de todo intervencionismo, só que aqui aplicado com bulldozer.
No fim, o que está em jogo não é apenas a oliveira. É o princípio de que a propriedade é anterior ao Estado, é a ideia de que o trabalho misturado à terra cria um direito que nenhuma maioria e nenhum decreto podem cancelar por conveniência estratégica. Cada árvore que cai sem processo, sem indenização, sem contraditório, é um tijolo removido do alicerce da civilização ocidental que todos os envolvidos alegam defender. E uma civilização que aceita a pilhagem legalizada em qualquer lugar acaba aceitando em todo lugar, porque o precedente é a moeda mais inflacionária que existe.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.