O trigo da Euronext caiu de novo, e a razão é antiga como o próprio comércio: incerteza sobre a saída de grãos pelo Mar Negro. Bastou o rumor de que os corredores de exportação da Ucrânia e da Rússia podem travar, ou destravar, ou meio travar, ou destravar seletivamente, para o mercado se desmontar em poucas horas. Não foi uma nova taxa, não foi uma nova safra, não foi uma nova política agrícola comum de Bruxelas. Foi o velho e humilde fluxo de navios cargueiros ditando o preço do pão que a dona de casa em Lisboa vai comprar semana que vem.

Aqui está a lição que os planejadores centrais fingem não entender há um século. O preço do trigo não é uma decisão de comitê, não é uma variável a ser calibrada por Ph.D. em macroeconomia, não é uma linha em planilha do FMI. É a síntese instantânea de milhões de decisões de gente que a burocracia europeia jamais conheceu: o capitão do navio que avalia se enfrenta ou não o risco do estreito, o produtor russo que decide se vende agora ou estoca esperando dólar melhor, o importador egípcio calculando se paga o prêmio ou aposta na safra francesa. Nenhum ministério consegue processar essa quantidade de informação. O mercado processa em segundos, e chama isso de cotação.

Repare como funciona o teatro. A Europa passou uma década inteira subsidiando agricultores com bilhões da política agrícola comum, quotas, tarifas, "green deals" que pagam para não plantar, protecionismo travestido de sustentabilidade. Resultado: continua dependendo do trigo que atravessa uma zona de guerra para não ver o preço da baguete triplicar. O intervencionismo custou fortuna, distorceu incentivos, quebrou pequeno produtor familiar, engordou lobbies de conglomerado agrícola, e mesmo assim a segurança alimentar do continente continua pendurada num porto ucraniano que qualquer drone pode fechar. Alguém no Parlamento Europeu vai explicar como isso foi um bom investimento?

Siga a trilha do dinheiro e a coisa fica mais divertida ainda. Cada oscilação dessa é festa para tradings gigantes de commodities, algumas com faturamento maior que o PIB de país médio, que operam dos dois lados da tela, compram informação privilegiada geopolítica, contratam ex-diplomatas, ex-generais, ex-ministros, e transformam o pânico do mercado em margem bruta de dois dígitos. Enquanto isso, o produtor de trigo do Paraná, do Rio Grande do Sul, que poderia estar ocupando esse espaço, patina em cima de infraestrutura logística terceiro-mundista, câmbio administrado por conveniência eleitoral e imposto sobre exportação que ninguém tem coragem de sepultar. O Brasil tem terra, tem clima, tem tecnologia, e ainda importa trigo. Quer dizer, ainda somos coadjuvantes num mercado que deveríamos protagonizar, porque o Estado brasileiro conseguiu a proeza de encarecer o que a natureza deu de graça.

O que se vê é o preço caindo no painel eletrônico da Euronext. O que não se vê é o padeiro em Marselha aliviado por uma semana, o consumidor egípcio que talvez tenha subsídio ao pão sem cortar, o corretor em Chicago que fechou hedge no momento certo. Mas também não se vê o produtor ucraniano que planta sem saber se vai vender, o russo que exporta sob sanção e recebe metade, o africano que depende dessa incerteza para não passar fome. Cada centavo de oscilação é uma cadeia inteira de gente real, com nome, com família, com aluguel. E cada uma dessas pessoas está reagindo a informação que nenhum burocrata jamais terá acesso. Isso não é falha do mercado. Isso é o mercado funcionando exatamente como precisa funcionar, apesar do intervencionismo que tenta o tempo todo enfiar areia na engrenagem.

A conclusão vai desagradar quem prefere achar que existe uma reunião em Bruxelas capaz de resolver o preço do trigo mundial. Enquanto governos brincarem de planejar oferta, subsidiar demanda e sancionar quem exporta, o mercado seguirá corrigindo essas distorções à sua maneira, geralmente na cara do consumidor mais pobre. A queda de hoje na Euronext não é notícia econômica: é lembrete didático. O pão do mundo é decidido por quem planta, transporta e compra, não por quem legisla. E graças a Deus é assim, porque no dia em que for o contrário, faltará pão de verdade.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.