A notícia chega embrulhada em papel de presente. A Triton Partners, gestora europeia de private equity que arrematou o Trench Group da Siemens em 2018 por um valor que ninguém quis divulgar, agora estuda uma saída que pode envolver venda estratégica ou abertura de capital, e o argumento oficial é a explosão de demanda por equipamentos elétricos puxada pela inteligência artificial. Traduzindo do dialeto dos banqueiros para o português: compraram um negócio maduro num momento de juros baixos, seguraram por sete anos enquanto o Banco Central Europeu inflava tudo que tinha ativo real precificado, e agora querem realizar o ganho antes que a maré vire.
Olha, é preciso reconhecer o timing. A Trench fabrica transformadores de instrumento, reatores e bobinas de bloqueio, aqueles equipamentos feios e pesados que ninguém nota até faltarem. E estão faltando. Cada data center de hiperescala construído para rodar modelos de linguagem consome energia equivalente a uma cidade média, e a infraestrutura elétrica que sustenta essa festa não foi projetada para o volume que vem por aí. O gargalo é físico, é real, e a Trench está exatamente no ponto certo da cadeia. Até aí, nenhuma polêmica. O problema começa quando o mercado interpreta escassez estrutural como sinônimo de crescimento perpétuo e paga múltiplos de empresa de software por fabricante de metal enrolado em cobre.
Me diz uma coisa. Quando foi que a expansão brutal do balanço dos bancos centrais desde 2020 saiu da conversa? A euforia atual em ativos ligados a infraestrutura elétrica não caiu do céu, ela é filha direta de uma década de crédito artificialmente barato que empurrou capital para qualquer história plausível de crescimento. A inteligência artificial é a história plausível da vez, do mesmo jeito que a internet foi em 1999 e as ferrovias foram em 1873. Não estou dizendo que a demanda por transformadores é fake, estou dizendo que o preço que se paga hoje por essa demanda embute uma expectativa de continuidade que ignora o custo do dinheiro voltando ao seu patamar histórico.
Siga o rastro. Em 2018, a Siemens vendeu a Trench porque considerou o negócio periférico, ativo maduro em setor de capital intensivo com margem espremida. A Triton comprou porque via valor onde o vendedor via peso morto, e nisso o mercado funciona. O que o mercado não faz sozinho é criar as condições para que um negócio industrial dobre ou triplique de valor em sete anos sem que a produtividade real da empresa tenha dobrado ou triplicado no mesmo período. Isso quem faz é política monetária, subsídio governamental a energia verde, corrida regulatória por eletrificação forçada e agora o hype dos data centers. Cada uma dessas pernas tem um lobby por trás, um pacote fiscal, um regime de incentivo. O private equity apenas leu o cardápio, escolheu o prato e agora quer pagar a conta ao próximo cliente.
O que não se vê nessa transação, e ninguém vai colocar no prospecto do IPO, é o custo de oportunidade da economia europeia inteira redirecionada para sustentar essa febre. Cada bilhão que entra em ações da Trench é um bilhão que saiu de outro lugar, do capital de giro de uma pequena indústria estrangulada pelo custo da energia, do salário do trabalhador que paga imposto para financiar subsídio de transição energética, da poupança do aposentado que vê o rendimento real corroído pela inflação de ativos. A festa da IA é real para quem está na sala. Para quem está pagando a conta lá fora, é só mais uma rodada de transferência de renda dos produtivos para os posicionados.
Ficará tudo bem enquanto a música tocar. Bancos de investimento já se posicionam para o mandato, escritórios de advocacia afiam os contratos, consultores de valuation preparam os slides. No dia em que o Banco Central Europeu perceber que a inflação de bens não voltou porque a inflação de ativos nunca cedeu, ou no dia em que a bolha da IA descobrir que treinar modelo não é a mesma coisa que ter lucro operacional, alguém vai olhar para o balanço da Trench e perguntar por que pagou aquilo. A resposta é sempre a mesma. Pagou porque todo mundo estava pagando. E todo mundo estava pagando porque o dinheiro era abundante. E o dinheiro era abundante porque alguém, em algum lugar, decidiu que planejar o custo do crédito era mais inteligente do que deixar o mercado descobrir.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.