A cena parece banal para quem lê manchete de mercado no café da manhã. A Chord Energy vendeu ativos no Marcellus, uma das formações de gás mais produtivas do planeta, e uma corretora respeitável correu para elevar o preço-alvo da ação. Analistas sorriram, gestores rebalancearam carteiras, o algoritmo comprou. Só que ninguém parou para perguntar por que uma empresa se desfaz voluntariamente de reservas de hidrocarboneto num mundo faminto por energia. A resposta não está na planilha, está no emaranhado de regras, licenças e sinalizações regulatórias que transformaram operar no Nordeste americano num exercício de masoquismo corporativo.

Olha, o Marcellus deveria ser a Arábia Saudita do gás natural do hemisfério ocidental. Está lá, embaixo dos pés, esperando ser produzido. E ainda assim empresas fogem dele como quem foge de cobrador. Nova York proibiu fracking por decreto, Pensilvânia sufoca licenças, o governo federal ora libera ora congela terminais de exportação conforme o humor eleitoral do trimestre. Quando o Estado transforma o cálculo econômico numa loteria política, o empresário racional faz o que a Chord fez: pega o dinheiro e vai embora para uma bacia onde ao menos sabe as regras do jogo. E o mercado, incapaz de enxergar o que não se vê, celebra a fuga como se fosse estratégia brilhante.

Aqui é onde o negócio fica interessante. Quem comprou os ativos? Alguém comprou, porque gás não desaparece. Provavelmente um player com apetite maior por risco regulatório, ou com relações políticas melhores, ou com estrutura de capital que aguenta o próximo ciclo de perseguição climática de gabinete. A produção continua, o gás continua saindo, só que agora nas mãos de quem sabe navegar o pântano de licenças. Quer dizer, a regulação não impediu a extração, apenas escolheu quem tem permissão para extrair. Isto tem nome antigo e feio, e não é livre mercado, é capitalismo de compadrio disfarçado de política ambiental.

O consumidor americano, aquele sujeito que paga a conta de aquecimento no inverno de Boston e a fatura de eletricidade em Nova Jersey, é quem financia esta encenação. Cada barreira artificial à produção doméstica se traduz em preço mais alto na ponta, em importação de gás liquefeito que atravessa o Atlântico queimando combustível, em dependência de fornecedores que ontem eram russos e amanhã serão qatarianos. A conta da virtude regulatória sempre chega, só que chega fatiada, embutida no boleto, invisível para quem não sabe onde procurar. E não sabe porque a imprensa econômica prefere celebrar preço-alvo elevado a explicar por que a empresa preferiu fugir a investir.

O mais irônico é que a mesma corrente política que celebra a transição energética depende, para viabilizá-la, exatamente do gás natural que ela mesma sabota. Turbina eólica não fabrica turbina eólica, painel solar não instala painel solar sozinho, e a rede elétrica que sustenta o carro elétrico precisa de base firme quando o vento para de soprar. O gás do Marcellus é a ponte que atravessaria essa transição sem apagão. Só que a ponte está sendo dinamitada por decreto, e as empresas que restam são as que aprenderam a lucrar com a demolição, não com a construção. Isto não é economia, é teatro moral pago com dinheiro alheio.

Então quando você ler que a Truist elevou preço-alvo da Chord Energy, entenda o que está por trás da manchete. Uma empresa saudável vendeu ativos produtivos porque o custo político de operá-los superou o benefício econômico de extraí-los. O mercado aplaudiu porque o mercado, no curto prazo, é máquina de reagir a sinal, não de interpretar causa. E o cidadão comum, que nem lê Investing.com nem se importa com o Marcellus, vai receber a fatura do gás mais cara no próximo inverno sem nunca conectar uma coisa à outra. A pilhagem mais eficiente é aquela que a vítima nem sabe que sofreu.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.