A cena é quase cômica de tão reveladora. Uma corretora renomada reitera recomendação de compra para uma consultoria americana especializada em, veja bem, resgatar hospitais, universidades e órgãos públicos que não conseguem fechar a própria planilha. E o argumento do relatório é o crescimento da linha de serviços gerenciados, aquele eufemismo elegante para dizer que a empresa não apenas dá o conselho, ela agora fica hospedada dentro do cliente executando o que o cliente deveria saber fazer sozinho. Traduzindo em bom português, existe um setor inteiro do capitalismo americano que virou fiador operacional de instituições que perderam a capacidade de existir sem terceirização.

Quer dizer, ninguém escreve o óbvio no relatório, mas o modelo de negócio é brilhante justamente porque parasita a incompetência crônica de estruturas que deveriam ter incentivo para melhorar e não têm. Hospital universitário, sistema de saúde regional, prefeitura, órgão estadual, faculdade privada agonizante. O denominador comum de toda a carteira é o mesmo, gente gastando dinheiro que não é próprio, num ambiente onde a falência não é castigo porque o Tesouro socorre, o filantropo cobre e o contribuinte engole. Se o mercado punisse ineficiência de verdade nesse universo, essa consultoria teria um décimo do faturamento. Ela cresce porque o resto apodrece protegido.

Olha, siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais interessante. Serviços gerenciados são contratos plurianuais, receita recorrente, margem previsível, exatamente o tipo de fluxo que analista adora porque parece anuidade de seguradora. Só que a base contratante é composta majoritariamente de entidades subsidiadas, isentas ou financiadas por transferências públicas. Vale dizer, o mesmo pagador de imposto que sustenta o hospital, financia a universidade e mantém a agência estatal está pagando, por vias transversais, o cachê da consultoria contratada para consertar o buraco que a política fiscal criou. É um circuito fechado de dinheiro público disfarçado de eficiência privada.

E aqui mora a piada mais amarga do arranjo. Toda vez que a burocracia inventa uma nova regra de compliance, uma nova exigência regulatória, uma nova camada de relatório obrigatório, o dono da consultoria abre champanhe. Cada norma nova é um item na proposta comercial do trimestre seguinte. O regulador legisla, o cliente entra em pânico, a consultoria vende o pacote de adequação. Ninguém dentro desse ciclo tem interesse genuíno em simplificar coisa nenhuma, porque a complexidade é o produto. É o velho princípio de que quando a lei cria labirinto, alguém está vendendo o mapa.

Me diz uma coisa, faz sentido comemorar como sinal de vigor econômico uma empresa cujo crescimento depende diretamente da incapacidade crescente de governos, hospitais e escolas em cumprir tarefas básicas? Faz do ponto de vista do acionista, obviamente, e por isso a recomendação de compra é honesta dentro da lógica financeira. Mas do ponto de vista civilizacional, é sintoma. Sintoma de que estamos institucionalizando a terceirização da competência, criando uma casta de mediadores caros entre o cidadão pagador e o serviço prometido, e chamando isso de mercado. Não é mercado, é intermediação obrigatória de burocracia inflada.

Não existe economia saudável que faça sua vanguarda empresarial da administração terceirizada da falência alheia. Existe economia refém do próprio inchaço, e Wall Street está apenas fazendo o trabalho dela, precificar o parasitismo com o rigor de uma planilha.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.