Trump anunciou na Truth Social a criação de uma "Força-Tarefa de IA" e a nomeação iminente de um czar para conduzir o desenvolvimento da inteligência artificial nos Estados Unidos. A palavra é czar, sem ironia, escolhida por um governo que se vende como antiestatista para descrever exatamente aquilo que o czarismo sempre foi: um homem só, com poder discricionário, decidindo o rumo de um setor inteiro a partir de um gabinete em Washington. Se o nome já entrega a coisa, o mecanismo entrega a fatura.

Toda vez que um governo resolve "impulsionar" uma tecnologia, o que está realmente acontecendo é a substituição do julgamento distribuído de milhões de engenheiros, investidores e consumidores pelo palpite concentrado de meia dúzia de burocratas com agenda política e amigos com CNPJ. O conhecimento necessário para saber qual arquitetura de modelo vence, qual chip escala, qual aplicação gera valor real, está pulverizado no mercado e se revela nos preços, nas falências, nos IPOs. Nenhum czar, por mais bem intencionado, tem acesso a essa informação. Ele tem acesso a lobistas.

E é aí que a coisa fica interessante. Siga o dinheiro. Quem se beneficia de uma "força-tarefa" da IA? As três ou quatro gigantes que já capturaram o ecossistema, que têm departamentos jurídicos maiores que muitos ministérios e que agora vão poder desenhar a regulação que sufoca justamente os concorrentes menores que ainda poderiam desafiá-las. Toda regulação apresentada como proteção do consumidor termina como fosso protetor do incumbente. É o casamento clássico entre o Estado que quer controlar e a empresa grande que quer eliminar competição, celebrado sob palmas da imprensa que chama isso de política industrial.

O que se vê é o anúncio pomposo, o czar de terno, a promessa de manter a América na dianteira da corrida tecnológica. O que não se vê é a startup que não vai nascer porque o custo de compliance ficou proibitivo, o pesquisador que vai migrar para uma jurisdição menos gentil, o capital que vai ser realocado da inovação genuína para o teatro regulatório. O que não se vê é sempre maior do que o que se vê, e na conta final quem paga é o consumidor que vai receber um produto pior, mais caro e mais monitorado do que aquele que o mercado livre entregaria.

Há ainda a questão do precedente. Um governo que cria czar para IA hoje cria czar para redes sociais amanhã, para criptomoedas depois de amanhã, para qualquer coisa que se mova. Cada intervenção gera a próxima, cada distorção pede correção, e a espiral não para até que o setor esteja tão emaranhado em decretos que a inovação vira privilégio dos bem relacionados. Começa como "impulso à tecnologia" e termina como ministério da verdade computacional, decidindo quais modelos podem responder o que sobre qual assunto. O caminho é conhecido e a placa na entrada diz servidão.

A ironia final é que a IA americana não precisava de czar nenhum. Ela é líder mundial exatamente porque, até ontem, o governo estava distraído demais para atrapalhar. Bastava continuar distraído. Mas resistir à tentação de mandar é o que nenhum político consegue fazer, especialmente quando as câmeras estão ligadas e o setor da moda pede um pai.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.