Trump abriu a boca de novo e disse que o acordo comercial com o Canadá está a caminho, deve ser fechado "em breve", e o mercado, obediente como cachorro treinado, moveu-se alguns pontos como quem acredita. Ninguém sabe o que "em breve" quer dizer na boca de um presidente que transformou a política comercial em reality show, mas todo mundo finge que sabe. É a liturgia do teatro tarifário: o presidente ameaça, o outro lado reage, os dois se sentam, anunciam progresso, adiam, ameaçam de novo. E o cidadão comum, aquele que compra madeira canadense para reformar a cozinha ou vende soja americana para o vizinho do norte, paga a diferença em preços que ninguém explica.
O ponto que a imprensa financeira insiste em não ver é elementar. Quando dois governos se sentam para "negociar" quanto vão taxar o comércio entre seus povos, o que está em jogo não é a prosperidade de ninguém, é a divisão do butim. Tarifa não é ferramenta de política externa, é imposto sobre o próprio consumidor disfarçado de patriotismo. O trabalhador americano que aplaude a tarifa sobre o aço canadense é o mesmo que reclama do preço do carro novo três meses depois, sem fazer a ligação entre uma coisa e outra. E como fazer, se o telejornal celebra a "vitória negocial" e omite a fatura?
Siga o dinheiro e a coisa fica clara. Cada rodada dessa novela beneficia um conjunto específico de atores: os produtores domésticos protegidos, que ganham margem sem esforço; os consultores de comércio internacional, que faturam milhões para decifrar regras que os próprios governos inventaram; os lobistas em Washington e Ottawa, cujas agendas dependem exatamente da instabilidade que criticam em público. Quem perde? O consumidor anônimo, o pequeno importador que não tem departamento jurídico, a fábrica que planejava investir e agora congela tudo até saber se a tarifa some ou fica. Isto que não se vê é o custo real da política comercial, e é justamente o que nenhum comunicado oficial menciona.
Há também a farsa histórica embutida no discurso. Sempre que um governante fala em "reequilibrar" o comércio, evoca a imagem de uma balança que jamais existiu naturalmente. Comércio livre não produz déficit ou superávit no sentido moral que os políticos atribuem, produz troca voluntária entre indivíduos que julgam mutuamente vantajosa a transação. O Canadá vende petróleo bruto para os Estados Unidos porque há refinarias americanas que precisam desse tipo específico de óleo; os Estados Unidos vendem serviços digitais e maquinário porque o Canadá os quer. Tratar isso como disputa nacional é a mesma coisa que o padeiro brigar com o açougueiro porque um vende mais pão do que o outro carne.
E aí vem a parte que dá pena. O mesmo empresariado que aplaude o presidente na convenção do partido é o que passa o resto do ano rezando para que "em breve" chegue logo, porque não consegue mais planejar. Contratos de longo prazo viraram roleta. Cadeias de suprimento montadas ao longo de trinta anos foram desmontadas em dezoito meses para acomodar caprichos negociais. E quando o acordo finalmente sair, seja lá quando for, virá com pompa, com aperto de mãos, com fotos, e ninguém contabilizará quantos empregos foram destruídos no meio do caminho, quantos investimentos foram cancelados, quantos empreendedores desistiram de expandir porque não sabiam se a regra do próximo trimestre seria a mesma do atual. Isso não sai no telejornal porque não cabe em trinta segundos, mas é a única história que importa.
O acordo virá, é claro que virá. Sempre vem. Depois vem outro, depois outra ameaça, depois outra negociação. É o ciclo perpétuo do intervencionismo, que se alimenta dos próprios estragos e se apresenta como solução para o problema que ele mesmo criou. E o mercado, esse organismo teimoso que tenta funcionar apesar dos governos, seguirá encontrando caminhos, absorvendo o custo, empurrando a fatura para o consumidor final e sorrindo para as câmeras. A pergunta que ninguém em Washington ou Ottawa tem coragem de fazer é a mais simples de todas: e se os dois governos simplesmente saíssem do caminho e deixassem seus povos comercializarem em paz?
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.