Trump disse a repórteres que ainda avalia proibir a exportação de diesel dos Estados Unidos, com o pretexto piedoso de derrubar o preço do combustível no bolso do americano médio. É o mesmo roteiro que qualquer aprendiz de político descobre no primeiro semestre de mandato: se falta produto ou está caro, proíba de sair, tabele, decrete, ameace, faça cara de estadista na frente da câmera. O problema é que o mercado de energia não é um brinquedo de criança que se conserta com fita crepe, e o presidente que se acha esperto o bastante para gerenciar bilhões de decisões de refinaria, transporte e estoque num despacho executivo está apenas dizendo, com outras palavras, que substitui o cálculo econômico de milhões de agentes pela intuição de manhã de terça-feira dele.

Olha, o argumento vendido ao público é sempre o mesmo, e é sempre falso. Se proibirmos a exportação, sobra mais aqui, e sobrando mais aqui, o preço cai. Parece aritmética de padaria, mas ignora o que qualquer refinador honesto diria numa mesa de bar: se o produto não pode sair, o produtor deixa de produzir na margem, porque a rentabilidade da última barrica dependia justamente do mercado externo. Resultado prático em seis meses: menos investimento em capacidade, menos manutenção programada, e a queda de preço que durou uma manchete vira alta permanente no ano seguinte. O consumidor vê o benefício visível da canetada e não vê a fábrica que deixou de expandir, o poço que fechou, o caminhão que não rodou. Sempre é assim, e sempre alguém finge surpresa.

Quer dizer, tem também o detalhe geopolítico que Washington finge não enxergar. Os Estados Unidos são hoje o maior exportador líquido de destilados do planeta, e essa posição não se construiu por decreto, se construiu porque durante duas décadas o capital privado apostou pesado em refino, dutos e portos apostando que a regra do jogo não mudaria de manhã. No minuto em que o presidente sinaliza que pode fechar a torneira quando quiser, o cálculo do investidor muda para sempre. O prêmio de risco do setor sobe, o custo de capital sobe, e daqui a três anos o americano estará pagando mais caro pelo diesel dele porque o presidente de 2026 quis parecer duro na televisão.

Me diz uma coisa: quem ganha com uma proibição dessas? Não é o caminhoneiro do interior, que no primeiro trimestre pode até comemorar dois centavos de desconto na bomba antes de ver o frete geral desabar porque a economia industrial travou. Não é a dona de casa, que consome diesel indiretamente em cada tomate que chega ao supermercado. Ganham os políticos que precisam de manchete antes de eleição, ganham os burocratas que passam a distribuir cotas e licenças de exceção, e ganham, claro, as empresas com lobby forte o bastante para conseguir o waiver enquanto o concorrente médio afunda. Siga o dinheiro e o dinheiro sempre leva ao mesmo endereço, o balcão onde se troca influência política por reserva de mercado.

O mais patético é a pretensão de originalidade. Nixon tentou congelar preços de combustível nos anos setenta e produziu filas quilométricas em postos de gasolina, racionamento por placa de carro e uma inflação que só foi domada uma década depois com juros de dois dígitos. Chávez proibiu exportação de tudo que podia, e a Venezuela, sentada em cima da maior reserva de petróleo do mundo, hoje importa gasolina do Irã. Toda vez que um governo decide que sabe mais sobre alocação de recursos do que o preço livre, a fila se forma, o mercado paralelo floresce, e o burocrata que assinou o decreto vai palestrar em Davos sobre transição justa. É uma peça de teatro com o mesmo terceiro ato há setenta anos, e a plateia continua aplaudindo o primeiro.

Trump ainda não assinou nada, e talvez não assine, porque no fundo o instinto comercial dele sabe que sufocar o próprio setor exportador é tiro no pé. Mas o simples fato de ter dito em voz alta que considera a hipótese já é sintoma da doença, a doença de achar que a caneta presidencial resolve o que só a produção resolve. Baixar preço de combustível de verdade se faz de um jeito só, produzindo mais, refinando mais, transportando mais, e para isso o governo precisa apenas sair do caminho. Só que sair do caminho não dá manchete, e político nenhum resiste à tentação de aparecer resolvendo o problema que ele mesmo agravou.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.