Trump apareceu diante das câmeras dizendo que ele e Zelensky estão "trabalhando juntos" numa solução para a guerra na Ucrânia, e a imprensa global tratou o anúncio como se fosse o fim de Yalta. Vamos combinar uma coisa: quando dois chefes de Estado dizem que estão "trabalhando numa solução", o que eles estão de fato negociando é quem vai pagar a conta, quem vai ficar com o crédito da paz e quem vai ficar com os pedaços do território alheio. O resto é liturgia para telejornal.
Olha, a Ucrânia está quebrada, literalmente. Vive de transferências do Tesouro americano, de garantias do FMI, de doações europeias que saem do bolso do alemão que já paga a energia mais cara do continente. Zelensky não senta à mesa como chefe de uma nação soberana em pé de igualdade; senta como gerente de uma operação falimentar cujo maior credor é justamente o sujeito do outro lado da mesa. Quando o credor diz "vamos achar uma solução", o devedor concorda com tudo. Isto não é diplomacia, é reunião de recuperação judicial com bandeira.
Quer dizer, o mercado subiu, o petróleo oscilou, os títulos de dívida ucraniana tiveram um sopro de vida, e analistas de terno em Nova York escreveram relatórios explicando que "a geopolítica está precificando otimismo". Precificando otimismo é o eufemismo educado para "estamos apostando com dinheiro dos outros que um político vai cumprir o que prometeu". Quem viveu duas guerras mundiais, meia dúzia de acordos de paz no Oriente Médio e o teatro repetido das negociações com a Coreia do Norte sabe que promessa presidencial tem prazo de validade curto, geralmente até o próximo ciclo eleitoral.
Me diz uma coisa: quem financiou essa guerra desde o começo? O contribuinte americano, que já viu mais de cento e setenta bilhões de dólares saírem do seu bolso via pacotes de "ajuda", boa parte convertida em contratos gordos para a indústria de defesa de Washington. O contribuinte europeu, empobrecido pela crise energética que os próprios governantes fabricaram cortando gás russo sem substituto viável. E o próprio ucraniano, cuja economia foi transformada num apêndice da OTAN e cuja juventude foi triturada nas trincheiras enquanto oligarcas locais compravam mansões em Mônaco. Uma "solução" negociada agora não devolve os mortos, não devolve o dinheiro e não devolve a soberania que já foi hipotecada em troca de armamento.
E tem o detalhe que ninguém quer discutir: qualquer acordo de paz vai incluir "garantias de segurança" e "planos de reconstrução", eufemismos elegantes para novos pacotes de gastança pública sem prazo definido. Vai aparecer um fundo multilateral, uma agência da ONU, um consórcio de bancos privados com risco coberto por garantias estatais. A guerra terminará no papel e continuará no orçamento, porque a máquina de transferir dinheiro do trabalhador comum para empreiteiras conectadas ao poder não desliga sozinha. O que se vê é a foto do aperto de mão; o que não se vê é a fatura que vai chegar por vinte anos.
No fim das contas, Trump quer o Nobel, Zelensky quer sobreviver politicamente, os europeus querem parar de sangrar euros, e os russos querem consolidar o que já ocuparam. Ninguém na mesa representa quem realmente pagou essa guerra, que é o pai de família que viu o preço da gasolina, do pão e da conta de luz explodir para financiar uma aventura geopolítica na qual nunca teve voto. Quando esse pai de família descobrir que a "paz" custará mais caro que a guerra, talvez ele finalmente entenda por que o poder gosta tanto de guerras longas seguidas de reconstruções eternas.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.