O anúncio saiu como se fosse rotina de gabinete, mas o que aconteceu ali merece ser dito sem eufemismo: um pedaço de território soberano mudou de dono na prática, com assinatura das três partes, e a imprensa mundial tratou o assunto como se fosse acordo pesqueiro. Trump conseguiu, sem invasão, sem sanção, sem tanque cruzando fronteira, aquilo que tentou comprar em 2019 e virou piada internacional. A diferença entre a piada de ontem e o feito de hoje se chama alavancagem, e alavancagem no vocabulário do poder é apenas outro nome para saber onde o outro sangra.
Convém olhar para o que não se vê. A Dinamarca é membro da OTAN, mantém contingente militar simbólico e depende, para sua defesa real, do guarda-chuva americano desde 1949. Copenhague nunca teve capacidade material de defender a Groenlândia contra a Rússia, contra a China ou contra qualquer potência séria; apenas fingia ter, porque a ficção da soberania compartilhada era conveniente para ambos os lados. Trump apenas cobrou a conta que estava vencida há décadas. O dinamarquês assinou porque não tinha alternativa; o groenlandês assinou porque preferiu trocar de senhorio; e o americano assinou porque descobriu que o Ártico virou o novo Mar do Sul da China, com rotas comerciais abrindo pelo degelo e reservas minerais que farão a corrida do ouro parecer feira de troca.
Siga o dinheiro e a fotografia fica ainda mais clara. A Groenlândia possui uma das maiores reservas conhecidas de terras raras fora do controle de Pequim, e terras raras são o insumo sem o qual não se fabrica míssil, semicondutor, turbina eólica ou veículo elétrico. Enquanto o burocrata europeu discutia cotas de reciclagem de plástico, o chinês estava comprando mineradora na ilha, o russo estava militarizando bases no ártico e o americano, com pragmatismo digno de mercador fenício, resolveu que era mais barato garantir controle de segurança agora do que disputar cada tonelada de neodímio depois. O acordo não é sobre gelo, é sobre a tabela periódica.
Há uma lição amarga aqui para quem ainda acredita que a União Europeia é ator geopolítico relevante. Bruxelas passou a última década legislando sobre tampa de garrafa presa e emitindo comunicado indignado contra emissão de carbono, enquanto perdia, um por um, os territórios estratégicos que davam substância ao continente. A Dinamarca é membro fundador da União e acaba de entregar, sem consulta pública séria, o controle securitário de um território que responde por parte gigante do que faz um país ser país. Quer dizer, o europeu inventou uma burocracia continental que não protege nem os próprios membros, mas cobra taxa para funcionar. Impressionante como decadência sempre vem acompanhada de comissão permanente.
O leitor atento perceberá também a hipocrisia dos que passaram anos denunciando o imperialismo americano e agora emudecem diante do fato consumado. Quando Washington enviava marines para república bananeira, era escândalo humanitário; quando Washington assina papel tomando controle securitário de território ártico, é geopolítica realista. A diferença, como sempre, está em quem controla o microfone. E o microfone hoje pertence a quem entendeu antes dos outros que a era das ilusões acabou, que a ordem liberal do pós-guerra foi um interregno raro na história humana, e que voltamos ao velho jogo de sempre: quem tem força pega, quem não tem argumenta em conferência internacional enquanto perde o pedaço.
Resta a Groenlândia, com seus cinquenta e seis mil habitantes, entre a bigorna dinamarquesa que a tratou como reserva antropológica por séculos e o martelo americano que agora promete infraestrutura, empregos e proteção militar em troca do que já era, de fato, quintal alheio. Talvez saiam ganhando materialmente. Talvez percam identidade. Provavelmente ambos. Mas ao menos param de fingir que uma nação de duas ilhas escandinavas mandava em um continente de gelo do tamanho do México. A verdade, quando finalmente aparece, costuma vir vestida de comunicado oficial.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.