Trump disse em voz alta o que oitenta anos de política externa americana tentaram embrulhar em papel celofane. Os Estados Unidos podem permanecer no Irã, e podem ficar com o petróleo. Ponto. Nada de missão civilizatória, nada de levar liberdade aos oprimidos, nada de derrubar tirano por amor à humanidade. É o barril, é o preço do barril, é quem controla o fluxo do barril. A honestidade brutal do homem tem essa virtude perversa de escancarar aquilo que os antecessores dele mascaravam com discurso de Woodrow Wilson requentado.

Olha, quando um governo anuncia que vai ocupar território estrangeiro e confiscar o principal ativo daquele país, existe uma palavra técnica para isso, e ela não é diplomacia. Chama-se pilhagem. Os romanos faziam, os espanhóis faziam em Potosí, os belgas fizeram no Congo, e agora o filho pródigo do capitalismo americano propõe fazer no Golfo Pérsico com a mesma cara de quem está oferecendo um favor ao mundo. A diferença é que Roma pelo menos construía aqueduto no lugar. A ocupação americana costuma deixar Halliburton, Blackwater e uma dívida pública que quem paga é o contribuinte de Ohio.

Quer dizer, siga o dinheiro e a coisa fica clara. Quem lucra com uma ocupação prolongada no Irã? Não é o soldado de Kentucky que volta em caixão coberto de bandeira. Não é o pai de família americano que verá o imposto subir para financiar mais uma aventura no deserto. Não é sequer o consumidor de gasolina, porque petróleo controlado por burocrata do Pentágono nunca ficou barato para ninguém. Quem lucra são as empreiteiras militares que já têm o contrato redigido, as petroleiras que vão administrar o campo confiscado, e o complexo industrial que precisa de guerra permanente do mesmo jeito que peixe precisa de água.

Me diz uma coisa, o que sobra do sonho americano quando o próprio presidente admite que a política externa é apenas mercantilismo com míssil de cruzeiro? Sobra a evidência de que o Estado, quando fica grande demais, deixa de servir ao cidadão e passa a servir aos grupos que capturaram a máquina. O eleitor que votou em Trump achando que ele acabaria com as guerras eternas está descobrindo, três anos depois, que trocou de nome mas manteve o negócio. A promessa era trazer os meninos para casa. A entrega é ficar com o petróleo alheio e chamar isso de bom negócio.

E há ainda o detalhe pequeno, quase pudico, de que confiscar recursos naturais de outro país fere aquilo que os americanos mesmos, no papel, dizem defender desde 1776. O direito de propriedade, lembra? Aquele princípio segundo o qual ninguém, nem governo, nem exército, nem maioria parlamentar, pode tomar o que é do outro sem consentimento. Vale para o fazendeiro do Texas, mas não vale para o iraniano que por acaso nasceu sentado em cima do petróleo. A doutrina dos direitos naturais tem, ao que parece, uma cláusula geográfica de exclusão que os manuais de filosofia política esqueceram de mencionar.

No fundo, o episódio é pedagógico. Ensina que império e república são regimes incompatíveis, e que a nação que escolhe manter tropas em oitocentas bases pelo mundo já abriu mão, faz tempo, de ser o farol da liberdade que jurava ser. Resta o farol da conveniência, aceso enquanto o barril renderem dividendo. Quando parar de render, apaga-se a luz e vai-se embora, deixando o país ocupado em cacos e a fatura para o contribuinte de casa. É o modelo de negócio mais antigo do mundo, e o mais caro também.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.