Donald Trump resolveu abrir a boca sobre inteligência artificial e, em vez de discutir substância, preferiu o velho truque do político encurralado: transformar céticos em conspiradores. Quem levanta a mão para perguntar se as avaliações estratosféricas das gigantes de IA fazem sentido virou, da noite para o dia, agente de "forças muito negativas". É a retórica clássica de quem já vendeu a alma para um setor e agora precisa proteger o investimento dos outros com o megafone do cargo. Quando o chefe do Executivo da maior economia do planeta sai em defesa aberta de um punhado de empresas cujas ações estão infladas até o limite do concebível, algo cheira mal, e não é o enxofre dos supostos vilões invisíveis.
Vale lembrar que essa história de "não se preocupem, é diferente desta vez" tem barbas centenárias. Foi assim com as ferrovias americanas no fim do século dezenove, com o rádio nos anos vinte, com as pontocom no fim dos anos noventa, com o subprime em dois mil e seis. Toda vez que um setor decola no crédito farto e na fé cega de que a tecnologia mudou as leis da aritmética, aparece um figurão jurando que quem duvida é inimigo do progresso. E toda vez, sem exceção, a conta chega, e chega para quem menos podia pagar: o poupador comum, o aposentado que confiou o pé de meia ao fundo, o contribuinte que vai socorrer o banco "grande demais para quebrar".
Siga o dinheiro e o quadro se ilumina. As sete ou oito empresas que sustentam praticamente sozinhas a alta do índice americano têm relações umbilicais com o governo em contratos militares, subsídios de semicondutores, incentivos de infraestrutura energética para os data centers e um oceano de crédito barato viabilizado por uma política monetária que ainda não digeriu os excessos da pandemia. Não é livre mercado premiando o mérito; é capitalismo de compadrio numa escala que faria corar qualquer capitão da indústria do passado. Quando o presidente sai em defesa pública dos preços das ações, ele está, na prática, terceirizando o risco: o lucro fica com os acionistas de dentro, e o prejuízo, se vier, sobra para o Tesouro e para a impressora de dinheiro.
Há também o lado que ninguém quer olhar, aquele custo invisível que o brilho da manchete esconde. Cada dólar despejado em galpões cheios de placas de silício é um dólar que não foi para pequenos negócios, para pesquisa básica descentralizada, para produtividade real na indústria e no campo. A concentração absurda de capital em meia dúzia de conglomerados não é sinal de vitalidade econômica, é sintoma de que os preços relativos foram distorcidos por décadas de juros artificialmente baixos e de que o sistema perdeu a capacidade de dizer não a projetos ruins. O mercado, quando funciona, separa o joio do trigo; quando o Estado põe o dedo na balança, o joio recebe subsídio e o trigo vira ração.
E a parte mais deliciosamente irônica: o mesmo governo que se elegeu prometendo enfrentar o establishment de Washington agora usa a autoridade do cargo para blindar o establishment financeiro de Nova York e o establishment tecnológico da Califórnia. Chamar de "forças muito negativas" quem simplesmente aponta que uma empresa vale trinta vezes o próprio faturamento é o tipo de artimanha retórica que sempre precede o estouro. Quando o poder político precisa recorrer à demonologia para explicar por que os preços dos ativos não podem cair, o observador atento já pode começar a fechar as posições e apertar o cinto. Bolhas não estouram porque conspiradores as furam; estouram porque a aritmética, teimosa como sempre, cobra o que lhe é devido.
A lição, para quem quiser aprender, é antiga e simples: desconfie de qualquer autoridade que pareça mais preocupada em proteger a cotação das ações do que a integridade da moeda. Governo que faz torcida por bolsa é governo que já decidiu quem vai pagar a fatura quando a festa acabar, e a resposta, meu caro leitor, nunca é o presidente, os bilionários da tecnologia ou os gestores de fundo. É você.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.