O presidente americano soltou a frase que ninguém em Downing Street queria ouvir em ano de reorganização orçamentária britânica. Perguntado sobre o futuro da Irlanda do Norte, disse que a unificação com a República da Irlanda vai acontecer "eventualmente", como quem comenta o clima. Não trouxe plano, não trouxe cronograma, não trouxe garantia; trouxe apenas a constatação incômoda de que a fronteira desenhada em 1921 por burocratas cansados nunca teve pedigree histórico, e que impérios em declínio costumam perder primeiro as terras que anexaram por último.

Quem acompanha o assunto sabe que a previsão não é chute de amador. A demografia do Ulster vem se invertendo há duas décadas, o censo de 2021 já mostrou católicos ultrapassando protestantes pela primeira vez desde a partição, e o Brexit criou uma fronteira alfandegária no Mar da Irlanda que, na prática, já separou economicamente a província do resto do Reino Unido. Quer dizer, o divórcio começou pelo bolso, como sempre começa. Bruxelas fatura, Dublin comemora em silêncio, e Londres finge que a hemorragia fiscal de subsidiar Belfast com doze bilhões de libras por ano é gesto de amor pela União, quando é conta de pensão de império morto.

Olha, a graça do episódio é que a esquerda internacional, que passou décadas romantizando o IRA como movimento de libertação, agora precisa engolir que a unificação virou pauta de um republicano americano que ela detesta. E os unionistas de Belfast, que juraram fidelidade eterna à coroa, descobrem tarde demais que a coroa nunca teve fidelidade equivalente por eles; foi só a City de Londres calcular que a província custa mais do que rende, e o entusiasmo pelo verde-branco-vermelho da Union Jack começou a esfriar nos gabinetes do Tesouro. Ninguém sangra pelo súdito que dá prejuízo.

O ponto que ninguém quer encarar é este: fronteiras impostas por burocracia colonial não sobrevivem à aritmética. A partição de 1921 foi acordo de gabinete, não vontade orgânica de povo nenhum, e acordos de gabinete duram exatamente o tempo em que o poder que os assinou consegue pagar a conta de mantê-los. Quando o custo vira insuportável, o mapa se redesenha sozinho, e os políticos correm atrás para chamar de estadismo aquilo que é apenas contabilidade. A ordem espontânea da história tem essa mania irritante de humilhar planejadores.

Me diz uma coisa, alguém acha mesmo que uma província cuja economia já foi amarrada ao mercado único europeu por decisão do próprio Reino Unido, cujos jovens votam massivamente para permanecer, cuja demografia religiosa se inverteu, e cuja base fiscal depende de repasse de Londres, vai continuar britânica por sentimentalismo? Sentimentalismo não paga folha de servidor público. E quando Dublin, com PIB per capita já superior ao britânico graças a três décadas de imposto corporativo baixo e livre movimentação de capitais, oferecer a integração como salto de padrão de vida, o referendo se decide no supermercado, não no púlpito.

A previsão do americano, portanto, não é provocação nem chute; é leitura fria de quem entende que impérios administrativos morrem quando o subsídio cruza o limiar do ridículo. A Irlanda vai se unificar não por bravata de líder, não por revolução armada, não por generosidade britânica, mas porque a matemática dos incentivos econômicos, uma vez posta em movimento, é mais implacável que qualquer exército. E Londres, que passou um século tratando o Ulster como troféu, vai descobrir que troféu velho no armário só junta poeira e boleto.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.