Trump anunciou que vai exigir o fracionamento de vacinas infantis em cinco doses separadas, sob o argumento de que aplicar múltiplos imunizantes no mesmo dia seria arriscado. A ciência médica consolidada em décadas de estudos randomizados diz o contrário, mas isso é detalhe menor quando um homem com caneta na mão decide, sozinho, o que milhões de pediatras devem fazer. Quer dizer, um presidente que passou a campanha inteira prometendo tirar o Estado das costas do cidadão agora se transforma em pediatra-mor da República, ditando calendário vacinal do alto de um pronunciamento. A coerência, essa velha inconveniente, ficou para trás junto com os discursos de campanha.

Olha, quem paga a conta desse teatro sanitário não é o presidente nem os consultores que lhe sopraram a ideia no ouvido. Quem paga é o pai de família que agora precisa marcar cinco consultas em vez de uma, faltar cinco vezes ao trabalho em vez de uma, pagar cinco copagamentos em vez de um, e submeter a criança a cinco agulhadas espaçadas em vez de resolver tudo numa manhã. O que se vê é o gesto teatral do "cuidado". O que não se vê é a mãe que perde o dia de faxina, o operário que perde a diária, o autônomo que fecha a oficina, a criança que chora cinco vezes onde choraria uma. Toda intervenção estatal tem uma vitrine iluminada e um porão escuro, e o porão sempre é maior que a vitrine.

Me diz uma coisa, quem lucra com esse fracionamento? Siga o dinheiro e a resposta aparece rapidinho. Cinco consultas rendem cinco faturamentos para redes de clínicas. Cinco visitas rendem mais dispensações fracionadas para a indústria farmacêutica, que agora vende em unidades menores o que vendia em combo. Os planos de saúde recalculam prêmios porque a "utilização" aumentou. Os fabricantes de seringa, de gaze, de curativo infantil colorido, todos entram no bolo. E o eleitor comum, aquele que aplaudiu de pé o discurso do "vou proteger seus filhos", descobre no boleto do mês seguinte que proteção presidencial custa caro e que ele é o financiador involuntário do arranjo.

Existe aqui uma pretensão que atravessa séculos e nunca envelhece: a arrogância de imaginar que um gabinete central sabe mais que a soma dispersa do conhecimento de milhões de médicos, pesquisadores, epidemiologistas e mães que criam filhos há gerações. O calendário vacinal atual não foi inventado por burocrata iluminado numa tarde de terça. Ele evoluiu através de décadas de tentativa, erro, ensaio clínico, revisão por pares, ajuste e reajuste. É uma ordem que emergiu da experiência acumulada, não do decreto matinal de um ocupante temporário do poder. Derrubar essa cerca sem entender por que ela foi erguida é o esporte favorito de quem confunde autoridade com sabedoria.

E aqui mora o veneno mais perigoso, que é o despotismo travestido de compaixão. Quem oprime "para o seu próprio bem" não conhece limite, porque a consciência dele aprova cada passo do próprio abuso. Começa fatiando vacina, termina fatiando escolha. Hoje é a dose, amanhã é a dieta, depois é o horário de dormir da criança, e um dia o cidadão acorda tutelado do berço ao caixão por uma burocracia solícita que jurou amá-lo. A liberdade não morre num golpe, morre em cinco parcelas sem juros, cada uma aparentemente razoável, cada uma acrescentando um grilhão que ninguém sente até tentar levantar o braço.

No fim, o que sobra é a lição de sempre. Todo poder tende a se expandir, todo político tende a legislar sobre aquilo que não entende, toda promessa de menos Estado termina em mais Estado quando a caneta encontra a vaidade. O eleitor que votou pensando em liberdade descobre que comprou uma marca de tutela apenas com embalagem diferente. E a próxima geração cresce achando normal ir ao pediatra cinco vezes para uma tarefa que se resolvia numa, porque assim mandou o homem no palanque. Palanque, aliás, é onde nasce quase toda má ideia que depois vira lei.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.