Um arco erguido para celebrar a memória cívica de George Washington, o homem que recusou virar rei quando podia, vai agora servir de plataforma para drones militares e ninhos de atiradores de elite. A imagem é tão eloquente que dispensa comentário, mas justamente por isso merece um. Quando um governo precisa militarizar seus próprios monumentos, a pergunta relevante deixa de ser contra quem ele está armado, e passa a ser: por que ele acredita que precisa estar armado ali, no coração simbólico da república que diz representar?
Chamam isso de segurança. O nome antigo, mais honesto, era ocupação. Quando tropas montam posições permanentes em pontos altos da capital, com linha de tiro para praças, avenidas e transeuntes, o que se está encenando não é proteção contra ameaça externa, é demonstração de força voltada para dentro. E quem paga esse teatro é o mesmo contribuinte que também será alvo do drone caso decida protestar no lugar errado, na hora errada, com o cartaz errado. O custo aparece na planilha do Pentágono; o custo invisível é o cidadão americano aprendendo, de novo, que o Estado que jurou defendê-lo agora o mira do alto de um monumento.
Vale seguir o dinheiro, como sempre. Cada drone tem fornecedor, cada rifle tem contrato, cada operação de vigilância tem uma empresa de segurança privada faturando por hora de agente alocado. A indústria da paranoia é bilionária e ela precisa, para sobreviver, que o cidadão comum enxergue o vizinho como suspeito e o turista como ameaça. Militarizar Washington não protege ninguém do terrorismo, protege as margens de lucro de quem vende o kit de proteção. O arco vira vitrine, e a vitrine vende medo por atacado.
Há também a questão do hábito. Aquilo que começa como medida excepcional, justificada por uma ameaça específica e passageira, tem uma tendência histórica cruel de virar mobília permanente. Ninguém desmonta ninho de atirador depois que o evento acaba, ninguém devolve drone ao depósito depois que a semana tensa passa. O aparato fica, o orçamento cresce, e a próxima geração de americanos vai crescer achando natural que o passeio de domingo seja monitorado por câmeras térmicas montadas em monumentos históricos. É assim que a servidão se instala: não com um golpe, mas com uma reforma que ninguém percebeu quando ainda dava para reverter.
O detalhe mais amargo é a ironia estética. O arco existe porque, em algum momento, aquele povo quis lembrar que teve um general que largou o cargo e voltou para a fazenda. Era o gesto oposto do que se comemora hoje. Hoje se comemora concentração de poder, presença permanente do aparato coercitivo, normalização da suspeita. O arco continua de pé, mas o que ele significava foi discretamente evacuado e substituído por outra coisa. A pedra é a mesma; o espírito que a ergueu já não mora ali.
No fim, o problema não é técnico, é civilizacional. Uma república que precisa apontar rifle para o próprio povo em praça pública já perdeu a discussão importante muito antes do primeiro drone subir. Resta saber quanto tempo ainda leva para o eleitor médio notar que a fortaleza foi construída para protegê-lo dele mesmo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.