A Tyler Technologies, aquela fornecedora de software que praticamente monopoliza os sistemas de prefeituras, tribunais e órgãos públicos nos Estados Unidos, anunciou um programa de recompra de ações no valor de US$ 260 milhões. Traduzindo do idioma corporativo para o português: a empresa vai pegar o próprio caixa e usar para comprar papéis que já são dela, reduzindo o número de ações em circulação e mecanicamente empurrando o preço para cima. É engenharia financeira pura, e é legal, e é sintomática de tudo aquilo que anda torto no capitalismo americano contemporâneo.

Repare no arranjo. A Tyler vive de contratos públicos, ou seja, vive de imposto. O contribuinte americano paga a prefeitura, a prefeitura paga a Tyler, a Tyler acumula margem operacional generosa porque software governamental é mercado cativo com custo de troca proibitivo, e depois de acumular caixa ela decide que a melhor alocação possível para esse dinheiro é comprar a si mesma. Não é abrir novos mercados, não é contratar mais engenheiros, não é reduzir preço para o cliente final que é o próprio contribuinte. É recomprar ação para bombar o preço no pregão e engordar a remuneração variável dos executivos, que quase sempre está atrelada ao valor do papel. Siga o dinheiro e o esquema aparece inteiro.

Há uma explicação técnica para essa epidemia de recompras que tomou conta do S&P 500 na última década, e ela não é lisonjeira para quem imprime moeda. Quando o banco central mantém juros artificialmente baixos por tempo demais, o custo de capital fica distorcido, e a matemática interna das empresas passa a favorecer o retorno rápido e garantido da recompra sobre o investimento produtivo, que é sempre incerto e demorado. O crédito barato não financia fábrica nova, financia manobra contábil. E quando o ciclo vira, quando o juro sobe, o mesmo executivo que recomprou ação a preço inflado vai pedir demissão em massa alegando que o cenário mudou. O bônus, esse, ninguém devolve.

O detalhe que a imprensa financeira nunca conta é que a recompra funciona como um imposto invisível sobre o futuro. Cada dólar que sai para comprar papel é um dólar que não entrou em pesquisa, em produto novo, em treinamento, em algo que gere valor real daqui a dez anos. A empresa fica menor, mais alavancada e mais frágil, mas o gráfico do trimestre fica bonito. É o equivalente corporativo de vender o sofá para pagar o restaurante e depois se gabar de estar comendo bem. E quando a próxima recessão bater, essas mesmas companhias vão bater na porta do governo pedindo socorro, porque agora não têm mais colchão nenhum. Já vimos esse filme em 2008 e em 2020, e a plateia parece decidida a aplaudir de novo.

No caso específico da Tyler, o incômodo é maior porque estamos falando de uma empresa que fatura vendendo tecnologia ao próprio Estado. O cidadão americano paga imposto para custear o software que a Tyler licencia, a Tyler acumula lucro sobre esse contrato, e depois usa o lucro para enriquecer acionistas que na maioria das vezes são fundos de gestão passiva concentrados em três ou quatro gestoras de Wall Street. O contribuinte financia a captura regulatória, a captura regulatória financia a margem, a margem financia a recompra, e a recompra financia o bônus. É um moto contínuo de transferência de riqueza do público para o privado disfarçado de eficiência de mercado. De mercado tem pouco. De privilégio tem tudo.

O sinal mais importante desse anúncio, portanto, não é o valor recomprado nem o efeito de curto prazo no preço. É a confissão implícita de que nem uma empresa dominante em um nicho protegido enxerga oportunidade produtiva melhor do que se autocomprar. Quando o capitalismo chega a esse ponto, ele parou de ser um sistema de descoberta e virou um cassino onde as fichas foram redistribuídas antes da partida começar. E o pagador da conta, como sempre, é o sujeito que acorda cedo, paga o imposto municipal em dia e nem sabe que financiou o brinde do trimestre em algum comitê de remuneração em Plano, Texas.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.