Quase um trilhão de dólares. É o número que o UBS jogou na mesa como quem anuncia o cardápio do dia, projetando o capex global em inteligência artificial para 2026. Para efeito de comparação, isso é mais do que o PIB anual da Suíça, país onde o próprio UBS tem sede e onde, presume-se, alguém ainda sabe fazer conta. O detalhe que ninguém no relatório ousa sublinhar é que esse trilhão não caiu do céu, não brotou de poupança acumulada por trabalho produtivo, não veio de lucro reinvestido de negócios saudáveis. Veio, em boa parte, de crédito barato manufaturado por bancos centrais que passaram quinze anos empurrando juros para o chão e agora fingem surpresa quando o dinheiro fácil produz apostas cada vez mais delirantes.
Olha, é curioso como o mercado financeiro tem a memória de um peixe dourado. Faz vinte e cinco anos que a mesma coreografia se repete com fantasia nova. Nos anos noventa foram as ponto-com, e qualquer garagem com um domínio terminado em .com valia mais que a General Motors. Em 2007 foram os subprime, e cada mendigo americano ganhou uma casa financiada por um banco que revendia a dívida embrulhada como AAA. Agora é a IA, e o ritual é idêntico: analistas de terno caro publicando projeções bilionárias, executivos anunciando data centers do tamanho de cidades, investidores individuais convencidos de que dessa vez é diferente. Nunca é diferente. É sempre a mesma expansão artificial de crédito irrigando um setor específico até que a bolha estoure e o contribuinte apareça, discreto, para carregar o caixão.
Quer dizer, alguém sabe explicar como uma indústria que ainda não descobriu como monetizar consistentemente seu produto justifica um trilhão de dólares em investimento anual? A OpenAI queima dinheiro como se fosse combustível de foguete. A Anthropic vive de rodadas de captação que só existem porque o Vale do Silício decidiu que o rótulo IA vale o que quer que os fundos digam que vale. Os hyperscalers, Microsoft, Google, Amazon e Meta, estão construindo capacidade computacional numa escala que só faria sentido se cada ser humano do planeta passasse a consumir cinco vezes mais serviços digitais amanhã de manhã. Não vai acontecer. E quando não acontecer, os ativos comprados a preço de estratosfera vão valer o que a realidade diz que valem, não o que o PowerPoint prometeu.
O que se vê é o data center reluzente, o anúncio de contratação, a manchete otimista. O que não se vê é o custo de oportunidade descomunal, o capital sugado de setores produtivos reais para alimentar uma corrida especulativa, a energia elétrica desviada para treinar modelos que ninguém pediu, o pequeno empresário que não consegue crédito porque toda a liquidez foi drenada para chips da Nvidia. Segue o dinheiro e você entende o arranjo. Os fabricantes de semicondutores vendem picaretas para todos os garimpeiros dessa corrida do ouro. Os fundos de private equity vendem participações a múltiplos absurdos entre si mesmos. Os bancos de investimento, como o próprio UBS que assina esse relatório, cobram taxa em cada operação e depois publicam a projeção que justifica a próxima rodada. É um moto-contínuo de comissões, e ninguém tem interesse em desligar a máquina.
Me diz uma coisa, quando foi que passamos a chamar de investimento aquilo que é aposta alavancada? Investimento pressupõe cálculo de retorno esperado, análise de fluxo de caixa, disciplina de capital. O que está acontecendo em IA é a antítese disso: gastar primeiro, esperar que o produto apareça depois, torcer para que o hype sustente as ações até que alguém invente uma justificativa contábil. Bancos centrais fabricaram esse ambiente ao suprimir a taxa de juros durante uma década, matando o sinal econômico mais importante que existe, o preço do tempo. Sem juros reais, o cálculo econômico vira chute. Sem cálculo econômico, capital flui para onde a moda mandar. E a moda, agora, manda para grafos neurais que consomem a energia de uma cidade média para gerar um poema medíocre.
A conta desse trilhão será paga, como sempre é, pelo elo mais fraco. Não pelos executivos que já venderam ações em opções milionárias, não pelos fundos que já cobraram suas taxas, não pelos analistas do UBS que já receberam bônus por publicar o relatório. Será paga pelo aposentado cujo fundo de pensão comprou ETFs de tecnologia no topo, pelo trabalhador cujo salário perde poder de compra enquanto a inflação corrói a moeda usada para financiar a farra, pelo pequeno investidor convencido no aplicativo do banco a alocar em fundos temáticos de IA quando o índice já bateu recorde. O ciclo é velho, o roteiro é conhecido, e ainda assim a plateia bate palma cada vez que anunciam a próxima cifra recorde. Quando essa bolha estourar, e ela vai estourar, ninguém vai poder alegar que não avisaram. Só que o aviso, como sempre, virá disfarçado de sátira e será ignorado até virar epitáfio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.