A notícia é curta e diz tudo. O UBS bateu o martelo, reiterou a recomendação de compra das ações da Johnson & Johnson e apontou o motivo com a frieza de quem lê balanço: o Caplyta, medicamento para transtorno bipolar e esquizofrenia herdado da compra bilionária da Intra-Cellular Therapies, está performando acima do esperado. Traduzindo do dialeto de banco para o português dos mortais: gente doente está melhorando, médicos estão prescrevendo, e a receita do produto sobe em curva que analista nenhum ousava desenhar seis meses atrás. E é aqui que a história fica interessante, porque nada disso foi planejado por ministério, decretado por agência ou subsidiado por fundo constitucional.
Repare no arranjo. Uma farmacêutica americana gasta quase 15 bilhões de dólares para engolir uma concorrente menor apostando numa molécula específica. O dinheiro é privado, o risco é privado, o eventual mico seria privado. Se o Caplyta tivesse fracassado nos ensaios finais, ninguém no Congresso americano teria proposto um pacote de resgate para acionista de laboratório frustrado. A Johnson & Johnson comeria o prejuízo sozinha, os executivos responsáveis pela aposta perderiam bônus e cargo, e o mercado, essa entidade que os intelectuais de esquerda tratam como vilão de novela mexicana, faria o que sempre faz: puniria o erro com precisão cirúrgica. Deu certo? Ótimo, agora paciente tem opção terapêutica que não existia, o banco recomenda a ação e o preço-alvo sobe. Deu errado? A empresa engoliria sozinha o boi.
Compare esse desenho com o modelo que certos economistas de estimação da imprensa brasileira defendem quando o assunto é saúde. Querem tabelamento, querem quebra de patente, querem que o Estado defina o preço justo do remédio como quem define o preço do pão francês na esquina. E aí você pergunta ao sujeito, com toda a gentileza do mundo, quanto custa desenvolver uma molécula do zero até chegar à farmácia. Ele não sabe. Quantos ensaios clínicos falham para cada um que passa. Ele não sabe. Quantos anos separam a primeira hipótese de laboratório da primeira receita médica. Ele também não sabe. Mas ele sabe, ah, isso ele sabe com convicção messiânica, qual é o preço justo. É o tipo de arrogância que só se cura com estágio compulsório num laboratório de fase três.
O detalhe que ninguém conta na coluna econômica dos jornais grandes é que cada dólar que o UBS coloca hoje na J&J por causa do Caplyta é um dólar que financia a próxima molécula, e a próxima, e a próxima. Capital não brota do chão nem cai do teto do Banco Central quando o presidente aperta um botão. Capital é poupança acumulada, é confiança na regra do jogo, é investidor acreditando que, se acertar, colhe, e se errar, aguenta. Quebre esse contrato, ponha um controle de preço aqui, uma expropriação de patente ali, um subsídio cruzado acolá, e o capital some. Não vira nada nobre no lugar; vira ausência. E ausência de capital em pesquisa farmacêutica significa doença sem tratamento, o que é uma forma bastante refinada de matar gente que ninguém vê morrer.
Há ainda a beleza silenciosa do processo. Ninguém votou no Caplyta. Nenhum plebiscito decidiu se a esquizofrenia merecia mais atenção que a depressão. Nenhum comitê de sábios em Washington escolheu qual molécula seguiria adiante. Foram cientistas apostando, empresas comprando, investidores financiando, médicos prescrevendo, pacientes respondendo. Milhões de decisões descentralizadas convergiram para produzir algo que melhora a vida de gente real, e o preço da ação da J&J subindo é apenas o placar visível desse jogo invisível. Toda vez que um planejador central diz que sabe fazer melhor, lembre desse caso. Ele não sabe. Ninguém sabe. É por isso que funciona quando se deixa funcionar.
Fica a lição que o UBS não escreveu no relatório mas está entre as linhas: o remédio que salva não nasce em gabinete, nasce em laboratório financiado por quem arrisca. Quem quer curar doente de verdade defende propriedade intelectual, contrato firme e lucro alto para quem acerta. O resto é discurso bonito para plateia que não toma o remédio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.