A UBS voltou a bater o martelo: compre Peloton. O motivo alegado é o lançamento de novas esteiras, como se o problema da empresa que perdeu mais de noventa por cento do valor de mercado desde 2021 fosse falta de esteira nova. Quer dizer, a companhia queimou capital, demitiu em ondas sucessivas, trocou de CEO como quem troca de camisa, e agora um relatório de analista promete que desta vez vai. Curioso como a fé bancária ressuscita sempre no momento em que alguém precisa distribuir posição para o varejo.

Olha, o mecanismo é velho e sempre funciona no elo mais fraco. Grande banco emite recomendação positiva, corretora replica, influenciador de finanças repete em vídeo de trinta segundos, e o sujeito que juntou dinheiro dirigindo aplicativo compra na alta achando que está entrando numa virada. O analista ganha bônus por cobertura, o banco ganha corretagem no fluxo, o fundo que precisava sair encontra liquidez, e o cidadão descobre meses depois que comprou o mico que o profissional estava vendendo. É a mesma coreografia que se repetiu com WeWork, com Beyond Meat, com dezenas de queridinhas da era do dinheiro barato.

A história da Peloton é o retrato exato do que juros zero produzem quando entram numa economia real. Uma bicicleta ergométrica com tela virou empresa avaliada em cinquenta bilhões de dólares porque havia dinheiro sobrando procurando qualquer narrativa. Pandemia, confinamento, todos em casa pedalando: o boom pareceu eterno. Só que boom fabricado por crédito artificial e por susto sanitário não é demanda de verdade, é ilusão contábil. Quando a taxa de juros voltou ao mundo dos vivos, a empresa despencou porque nunca teve modelo sustentável, teve apenas o vento a favor.

E agora o remédio é uma esteira nova. Me diz uma coisa: se o produto fosse tão revolucionário assim, a empresa precisaria que um analista de banco pedisse para o mercado comprar? Produto bom se vende sozinho, ação de empresa lucrativa sobe sem carta de recomendação. Quando o banco precisa gritar "compre", é porque ninguém está comprando espontaneamente. A regra vale para carro na concessionária, para apartamento na planta e para papel na bolsa. Quanto mais insistente o vendedor, maior a desconfiança que o comprador deveria ter.

O que se vê é o relatório animado, o gráfico bonito, a projeção otimista de receita recorrente com assinatura. O que não se vê é a base de assinantes estagnada, o custo de aquisição de cliente que continua absurdo, a concorrência que qualquer academia de bairro representa, e o simples fato de que ninguém precisa de uma esteira conectada à internet para correr. A pandemia criou uma demanda extraordinária que a empresa confundiu com demanda permanente, contratou como se fosse permanente, gastou como se fosse permanente, e agora vive de reestruturação em reestruturação tentando explicar aos acionistas por que a festa acabou.

A lição para o pequeno investidor é sempre a mesma e nunca é aprendida. Quando alguém que ganha comissão diz para você comprar, pergunte quem está vendendo para você poder comprar. A resposta costuma ser desconfortável. O mercado de capitais é uma escola cara, e o material didático são as economias de quem acreditou que o banco existia para enriquecer o cliente e não a si mesmo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.