O UBS reiterou a recomendação para as ações da CVS Health "sem novas surpresas", e essa frase já deveria acender a luz vermelha em qualquer investidor com meio neurônio funcionando. Quando um banco de investimento anuncia que não tem nada de novo a dizer sobre uma empresa que opera farmácias, planos de saúde, benefícios farmacêuticos e clínicas ambulatoriais dentro de um dos setores mais regulados, mais capturados e mais politicamente sensíveis dos Estados Unidos, ele não está tranquilizando ninguém. Está confessando que continua repetindo o script porque mudar de opinião custaria caro em relacionamento institucional.

A CVS não é uma farmácia. Isso ficou para trás em algum lugar entre a compra da Aetna e a metástase do modelo de PBM, os famigerados pharmacy benefit managers, aquele arranjo bizantino em que a mesma empresa negocia o preço do remédio, gerencia o plano de saúde que paga o remédio e ainda vende o remédio no balcão. Se você acha que isso cheira a conflito de interesse é porque tem olfato. Se acha que sobrevive há décadas apesar do cheiro é porque o congresso americano recebe generosas contribuições de campanha para não sentir nada. Siga o dinheiro e a análise do UBS começa a fazer um sentido diferente do que está escrito na primeira linha.

Olha, o modelo inteiro da CVS depende de uma coisa que nenhum relatório de banco vai colocar no PowerPoint: um emaranhado regulatório tão denso que a concorrência praticamente não consegue entrar. Não é eficiência de gestão, não é inovação disruptiva, não é sinergia entre verticais. É uma cerca eletrificada erguida a custa de lobby, e o lucro que pinga do outro lado é o que os economistas de terno chamam elegantemente de "vantagem competitiva sustentável". A tradução honesta seria "renda extraída do consumidor via captura regulatória", mas isso não cabe no target price.

Quer dizer, o cidadão americano paga o remédio três vezes. Paga como paciente no balcão, paga como segurado no prêmio do plano e paga como contribuinte no Medicare e no Medicaid, que são o verdadeiro filé mignon do faturamento da CVS. E o UBS analisa esse arranjo como se fosse uma empresa comum de varejo, com margens, múltiplos e ebitda, quando o produto real que a companhia vende não é medicamento. É acesso privilegiado ao dinheiro público via intermediação obrigatória. Isso não é capitalismo, é feudalismo com fachada de Nasdaq.

Me diz uma coisa, o que se vê é o preço da ação subindo ou caindo alguns pontos após o relatório. O que não se vê é o pequeno farmacêutico independente que fechou porque não conseguiu competir com o preço artificial imposto pelo PBM da CVS, o paciente idoso que pagou mais caro pelo genérico porque o intermediário embolsou a diferença no chamado spread pricing, e a inovação que não aconteceu porque uma startup farmacêutica não tem como furar o muro de contratos exclusivos. O relatório do banco não vê nada disso porque não foi contratado para ver. Foi contratado para produzir a peça teatral trimestral que o mercado exige.

A recomendação sem novidades é o retrato perfeito da era em que vivemos, onde a análise financeira virou liturgia repetitiva e o pensamento crítico foi terceirizado para o algoritmo do consenso. Um dia essa arquitetura toda desmorona, porque toda estrutura sustentada por privilégio e não por valor entregue tem prazo de validade, mesmo que o prazo demore décadas para vencer. Quando desmoronar, o mesmo UBS vai reiterar recomendação de venda "sem novas surpresas", e ninguém vai lembrar que ele passou dez anos dizendo o contrário.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.