A cena se repete com liturgia própria. Executivos da UCB sobem ao palco do Bank of America Global Healthcare Conference em Nova York, exibem slides coloridos, falam em "pipeline robusto" e "crescimento sustentado", e os analistas assentem com aquela reverência que só o dinheiro dos outros produz. No centro do espetáculo, um nome: Bimzelx. O medicamento contra psoríase e artrite psoriática que a farmacêutica belga transformou em bilhete premiado, e que agora carrega nas costas a promessa de manter a máquina girando. O resto do portfólio existe, claro, mas todo mundo na sala sabe para onde os olhos estão virados.
Olha, quando uma empresa inteira depende do desempenho de uma única molécula para justificar múltiplos de mercado, você não está diante de um caso de inovação triunfante, está diante de uma aposta concentrada travestida de estratégia. O mercado farmacêutico global funciona assim há décadas: patentes garantem monopólio temporário, monopólio garante margem obscena, margem obscena garante que o preço do remédio nada tenha a ver com o custo de produção e tudo a ver com o que o regulador permite cobrar. Bimzelx custa uma pequena fortuna por dose nos Estados Unidos, e a UCB sorri porque sabe que quem paga a conta não é o paciente, é o sistema de reembolso, o plano de saúde, o contribuinte via Medicare, todos aqueles bolsos coletivizados onde o preço deixou de existir como sinal econômico e virou negociação política.
Me diz uma coisa, por que esses eventos acontecem sempre no mesmo formato litúrgico? Porque não são reuniões de negócios, são cerimônias de validação. A empresa não vai a Nova York para descobrir se o remédio funciona, ela vai para que os fundos concordem em manter a ação nos radares. O valor subjetivo de uma ação farmacêutica não brota da eficácia clínica, brota da percepção agregada de milhares de gestores tentando adivinhar o que o próximo gestor vai fazer. Quando o CEO fala em "impulsionar crescimento", ele está mandando um sinal codificado para um sistema inteiro que precisa desses rituais para funcionar.
E aqui entra a parte que ninguém coloca no PowerPoint. A indústria farmacêutica ocidental construiu, ao longo de meio século, o casamento mais rentável da história recente entre lucro privado e financiamento público. Pesquisa básica bancada por dinheiro do contribuinte via universidades e agências como o NIH americano; ensaios clínicos guiados por regulação que expulsa concorrentes menores; patentes esticadas por manobras jurídicas que fariam corar qualquer manual de direito comercial; e, no fim da linha, um preço final decidido em mesas de negociação onde o consumidor real não está presente. Bimzelx é fruto legítimo desse arranjo. Não é fraude, é o desenho do jogo. E o jogo foi desenhado para que exatamente essa cena, executivos exibindo trilionésimos de crescimento em Nova York, se repita ano após ano.
O que se vê é uma multinacional pujante, empregando cientistas, entregando terapias inovadoras, remunerando acionistas. O que não se vê é o paciente que não consegue o remédio porque o plano nega, o competidor genérico que jamais nascerá porque as barreiras regulatórias mataram no berço, o dinheiro público que financiou parte da descoberta e nunca reaparece na conta como retorno ao cidadão. A conferência do Bank of America é a ponta visível de um iceberg cuja base é sustentada por transferências invisíveis de riqueza que só ficam claras quando alguém tem a paciência de puxar o fio.
Enquanto isso, os analistas continuam anotando as metas de vendas do Bimzelx, os traders continuam apostando na próxima aprovação regulatória, e a UCB continua sendo tratada como caso de sucesso empresarial. E é, dentro das regras do jogo. Só que o jogo, esse jogo específico, não é o mercado livre celebrado nos livros de economia. É outra coisa, uma criatura híbrida onde capitalismo e Estado se abraçam tão firme que já ninguém consegue dizer onde termina um e começa o outro. E toda vez que você ouvir "impulsionar crescimento" saindo da boca de um executivo em uma dessas conferências, lembre que crescimento em regime de compadrio não é vitória do mercado, é fatura sendo empurrada para depois.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.