O USDA soltou seu relatório mensal e fez o de sempre: derrubou a previsão da safra de milho americana e inflou a estimativa de soja. Duas linhas numa tabela, e Chicago se remexeu inteira. O produtor de Sorriso, o trader de Cingapura e o cerealista de Rotterdam passaram a tarde recalculando margens porque um punhado de analistas em Washington resolveu, com base em modelos que ninguém audita, que o milho vai render menos bushels por acre. Quer dizer, a soberania alimentar do planeta depende do humor mensal de um órgão do governo americano, e a gente ainda finge que existe livre mercado de commodities.
Olha, quem acompanha esse jogo há mais de duas décadas já sabe a coreografia. Em ano de eleição apertada, previsão de milho tende a cair, porque preço firme agrada o cinturão agrícola do meio-oeste, aquele mesmo que decide o pleito. Em ano de safra recorde no Brasil, previsão de soja americana sobe, pressionando o preço lá embaixo e apertando o concorrente do sul. Coincidência? Talvez. Mas coincidência que se repete década após década deixa de ser coincidência e vira método. Siga o dinheiro: quem lucra com a alta do milho são os produtores subsidiados de Iowa, e quem paga são os frigoríficos, os avicultores e, no fim da cadeia, o sujeito que compra frango no mercado em Uberlândia.
O detalhe que ninguém comenta é o absurdo epistemológico da coisa toda. Um único órgão estatal produz o número que o planeta inteiro trata como verdade revelada. Não existe segunda opinião concorrente com o mesmo peso. Não existe mercado de previsões auditadas. Existe o USDA, e os traders decoram os dias em que sai o relatório como muçulmano decora o horário da oração. Isso não é mercado, é liturgia burocrática. E o preço que emerge desse ritual não reflete a soma dispersa do conhecimento de milhões de produtores, compradores e intermediários; reflete o palpite institucional de um comitê que tem incentivos políticos próprios e nenhuma pele em jogo.
No Brasil, a reação foi a de sempre, o produtor entra em modo cálculo, a CBOT sobe, o dólar oscila, e o Ministério da Agricultura solta uma nota morna dizendo que acompanha com atenção. Acompanha coisa nenhuma. O Brasil produz mais soja que os Estados Unidos há três safras consecutivas, e ainda assim aceita passivamente que o preço da nossa própria produção seja formado por um relatório emitido em inglês por um órgão que trabalha explicitamente para os interesses dos concorrentes americanos. É como se o maior produtor de café do mundo aceitasse que a Colômbia definisse o preço da arroba. A humilhação é tão rotineira que ninguém mais estranha.
E tem a parte que não se vê, que é sempre a mais interessante. Quando o milho sobe artificialmente por causa do relatório, o etanol americano fica mais caro, o que empurra a demanda por etanol brasileiro, o que aperta o mercado interno de cana, o que sobe o preço do açúcar no supermercado de Belo Horizonte. Uma linha na planilha do USDA vira imposto invisível na mesa da dona de casa mineira que nunca ouviu falar em bushel. É a beleza perversa dos mercados intervencionados: o custo se dilui em milhões de vítimas anônimas, enquanto o benefício se concentra em um punhado de bem organizados que conhecem cada linha do relatório antes mesmo dele sair.
Me diz uma coisa, quanto tempo mais vamos aceitar que a formação de preço das commodities agrícolas globais dependa de um órgão estatal de um país específico, com agenda política específica, e chamar isso de mercado? Ou construímos alternativas privadas, descentralizadas e auditáveis de previsão de safra, ou continuamos dançando conforme a música que Washington toca, e pagando o cachê do maestro com a nossa própria produção. O mercado livre não morre por decreto; morre por resignação.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.