A notícia chega embrulhada em papel celofane. Usina em Hindlip entrando em operação comercial, capacidade instalada, palavras bonitas como transição, infraestrutura crítica, demanda estratégica. Tudo muito solene, tudo muito técnico, tudo muito conveniente. O que ninguém escreve no comunicado à imprensa é a pergunta que interessa: quem colocou a mesa, quem comeu o jantar e quem vai lavar a louça. Porque energia não brota do chão como cogumelo depois da chuva, energia se produz, se transporta, se distribui e alguém paga por cada elétron que corre no fio.
O truque é antigo e sempre funciona. Uma empresa privada ergue uma estrutura de bilhões, batiza de marco, ganha as manchetes elogiosas dos analistas de banco que dependem de patrocínio, e a conversa fica por aí. Ninguém pergunta quantos benefícios fiscais foram concedidos, quantas isenções tributárias entraram no pacote, quantos financiamentos subsidiados pelo BNDES ou por bancos de desenvolvimento estrangeiros bancaram a diversão. Ninguém pergunta se a licença ambiental saiu num prazo que o cidadão comum, ao tentar construir uma varanda de dois metros no fundo de casa, jamais conseguiria. O empresário sério que constrói sem esse arranjo é peça de museu; o resto é capitalismo de compadrio maquiado de empreendedorismo.
E há a questão dos data centers, que é o coração escondido dessa nova geração de usinas. Enquanto o discurso oficial fala em atender residências e pequenos negócios, a demanda real vem de galpões refrigerados que consomem, cada um, o equivalente a uma cidade média. Esses galpões não pertencem à padaria da esquina nem à costureira do bairro. Pertencem a conglomerados que negociam tarifas privilegiadas em contratos bilaterais, deixando a conta residual para o cliente cativo, aquele senhor de sessenta e cinco anos que recebe a fatura mensal e não entende por que a bandeira subiu de novo. A energia industrial mais barata sai do bolso da energia residencial mais cara. Simples, elegante, injusto.
Repare no vocabulário. Chamam de operação comercial como se fosse uma padaria abrindo as portas às sete da manhã. Comercial no sentido de que vende, sim, mas para quem, a que preço, com qual garantia contratual assinada com qual estatal ou reguladora complacente? O consumidor final descobre depois, na conta, no reajuste, no encargo setorial que aparece com nome novo a cada seis meses. A conta é sempre socializada, o lucro é sempre privatizado, e o comunicado à imprensa nunca menciona esse pequeno detalhe. É o padrão do setor, é o padrão do país, é o padrão do século.
O que se vê é a usina brilhando na foto do release, executivos de terno cortando fita, promessa de empregos que na prática serão duzentos operadores contratados por terceirizada e mais mil na fase de obra que somem no dia seguinte à inauguração. O que não se vê é a distorção de preços que essa infraestrutura provoca, o capital drenado de outros setores produtivos para financiar essa aventura, os pequenos geradores independentes esmagados pela concorrência desleal de quem tem acesso privilegiado à linha de crédito estatal. O que não se vê é sempre o que mais custa, e é justamente o que ninguém quer mostrar.
Chamam isso de progresso. Progresso genuíno seria deixar o mercado descobrir sozinho quem produz melhor e mais barato, sem tarifa protegida, sem subsídio disfarçado, sem regulação criada por lobista dentro do ministério. Progresso genuíno seria uma tarifa que refletisse o custo real, um consumidor livre para escolher fornecedor, uma concorrência de verdade. O que temos é teatro corporativo com direito a plateia de jornalistas econômicos aplaudindo em pé. Enquanto isso, a conta chega, sempre chega, e chega sempre no mesmo endereço.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.