Duzentos e vinte mil e duzentos e oitenta e quatro dólares. Esse é o valor exato que um vice-presidente da Matson, gigante americana do transporte marítimo, tirou da própria empresa vendendo ações nos últimos dias. O fato foi divulgado com a discrição habitual desses registros obrigatórios na SEC, aquele teatro regulatório em que a informação aparece publicamente para depois ser sepultada sob o noticiário de variações cambiais e relatórios trimestrais. Quem se dá ao trabalho de ler, lê. O resto do mercado segue comprando o papel achando que o executivo lá em cima sabe de algo bom. Spoiler, ele sabe, mas não é o que você imagina.

Existe uma assimetria de informação no coração do mercado de capitais que nenhuma regulação resolveu em cem anos de tentativa. O executivo enxerga a planilha real, o pipeline de contratos, o estado dos navios, a margem que está apertando, o cliente que ameaça sair, o sindicato que vai sentar à mesa. Você, investidor de fora, enxerga press release maquiado por departamento de relações com investidores. Quando aquele que está dentro da sala decide converter papel em dinheiro vivo, há algo de profundamente revelador no gesto. Não é por acaso que os formulários de insider trading existem; existem porque a história provou, repetidamente, que o sujeito de dentro vende antes da tempestade e compra depois do raio.

Quer dizer, não estamos falando de um faxineiro liquidando o plano de previdência para pagar a hipoteca. Estamos falando de um vice-presidente, alguém com acesso direto às projeções internas, aos contratos sigilosos, ao humor verdadeiro do conselho. Se ele está vendendo duzentos mil dólares hoje, em vez de segurar para o próximo dividendo ou para a próxima alta especulada nos analistas de Wall Street, é porque os números na cabeça dele não batem com os números na boca do CEO durante as conference calls. Siga o dinheiro, sempre. O dinheiro fala uma língua que o comunicado corporativo nunca aprenderá a falar.

E aqui entra o ponto que ninguém quer discutir em fórum financeiro respeitável. O mercado de ações virou uma liturgia de fé cega em executivos que ganham bônus bilionários para entregar resultado trimestral, custe o que custar à empresa no longo prazo. O incentivo está corrompido na raiz. O sujeito recebe stock options, espera o papel subir com algum anúncio bombástico, vende na alta e depois deixa o trambolho na mão dos fundos de pensão do trabalhador americano médio. É o capitalismo de compadrio operando em sua forma mais elegante, vestido de terno italiano e auditado por consultoria de prestígio.

A Matson em si é uma empresa razoável, opera rotas do Pacífico, transporta carga para o Havaí e Alasca, tem seu nicho protegido pela lei Jones que blinda o cabotagem americana da concorrência estrangeira. Repare bem nessa última parte, porque ela explica muita coisa. A empresa lucra num mercado artificialmente fechado por decreto governamental, e mesmo assim o vice-presidente prefere ter dinheiro no banco a ter mais ações da companhia. Quando até o beneficiário do protecionismo decide cair fora, o investidor desavisado deveria pelo menos suspeitar que a festa está chegando ao fim.

A lição não está na Matson, está no padrão. Toda vez que um executivo vende parcela relevante de ações sem motivo aparente, anote num caderninho e veja o que acontece com o papel nos seis meses seguintes. Não é regra infalível, mas é regra mais confiável que noventa por cento das recomendações de analistas pagos pelos próprios bancos que distribuem as ações. O insider não vende porque está confiante. Vende porque está com pressa de virar papel em coisa que ninguém imprime do nada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.