A imagem vazou pelo Metrópoles no domingo e, como toda boa fotografia do poder, valeu mais do que mil discursos de plenário. Autoridades do governo Lula e ex-ministros de Bolsonaro no mesmo salão, com taças na mão, sorrindo para o dono do banco Master, Daniel Vorcaro, na abertura do 1º Fórum Jurídico Brasil, em Londres. A cidade escolhida não é casual, porque nenhum político brasileiro assina cheque diplomático para viajar até a City sem que exista, do outro lado do balcão, alguém disposto a assinar de volta. E ali estava esse alguém, brindando com os dois lados do teatro nacional que, no telejornal, se digladiam por causa do futuro da pátria.
Convém lembrar que o Master não é um banco qualquer entrando em cena por acaso. É a instituição que vinha inflando o balanço com títulos podres, precatórios comprados a preço de banana e captação turbinada pelo Fundo Garantidor de Créditos, quer dizer, pelo bolso do correntista comum que garante, sem saber, a farra alheia. Quando o esquema começou a fazer água, apareceu, como num passe de mágica, a proposta de socorro via BRB, banco público do Distrito Federal. Traduzindo do economês para o português: o prejuízo da aposta privada seria empurrado para o contribuinte, enquanto os lucros já haviam sido, discretamente, distribuídos entre poucos. É o eterno arranjo, privatiza-se o ganho, socializa-se o rombo, e no meio do caminho serve-se salmão defumado em Londres.
Aí entra a fotografia do escândalo. Se o banqueiro que precisa do Estado para não quebrar recepciona, na mesma sala, ministros de esquerda e de direita, ex-titulares de pastas econômicas, togados de tribunais superiores e assessores de gabinete, o cidadão precisa admitir uma verdade desconfortável, a divisão ideológica que lhe vendem no horário eleitoral gratuito é figurino de novela. Nos bastidores, o elenco janta junto, ri das mesmas piadas e cobra o mesmo cachê. O silogismo é brutal na sua simplicidade, se A e B disputam publicamente, mas dividem o mesmo financiador em segredo, então a disputa é encenação e o financiador é o único personagem real. Não há grau, há apenas certeza aristotélica de que as coisas são o que são, não o que a assessoria de imprensa jura que sejam.
O detalhe londrino ainda merece uma nota de rodapé histórica. Sempre que a elite brasileira quis lavar seus arranjos com verniz de sofisticação, marcou reunião em capital estrangeira, de preferência de língua inglesa, porque o sotaque intimida o repórter e o fuso horário atrapalha o promotor. Foi assim nos empréstimos externos do Império, nos acordos da dívida na redemocratização, nas privatizações costuradas em hotéis cinco estrelas dos anos noventa. Muda o século, muda o produto financeiro, mas o roteiro é idêntico, brasileiros ricos festejam fora do país aquilo que, dentro dele, precisa continuar disfarçado de política pública. Londres, nesse enredo, cumpre o papel que Paris cumpria para os barões do café, um álibi geográfico para a promiscuidade.
Enquanto o vídeo circula, a pergunta que ninguém quer responder segue de pé. Se o dono do Master tinha tanto trânsito com autoridades dos dois governos, quem autorizou, quem tolerou, quem lucrou com a captação inflada, com a compra de precatórios, com a tentativa de repasse ao banco público? Cada taça erguida naquele salão corresponde, do lado de cá do Atlântico, a uma linha de balanço, um parecer técnico, uma canetada regulatória, um silêncio conveniente do Banco Central. E quando a conta finalmente chegar, e ela sempre chega, não será cobrada dos convivas de Londres, será debitada, em parcelas suaves, do assalariado que nunca pisou na City e que, ainda assim, banca a passagem executiva de quem o representa mal.
Resta, portanto, a mesma pergunta com que se abre e se fecha qualquer análise honesta do poder brasileiro, quem paga e quem recebe? Paga o cliente do Master que confiava no rótulo, paga o contribuinte que financia o FGC, paga o correntista do BRB que ia herdar o abacaxi, paga o eleitor que acreditou na briga entre os dois lados. Recebe o banqueiro que transformou dinheiro público em coquetel privado, recebem os ministros e ex-ministros que descobriram, entre uma taça e outra, que a pátria acaba onde começa o open bar, e recebe, sobretudo, a casta que há décadas administra o Brasil como se fosse espólio de família. O vídeo não é o escândalo, o vídeo é apenas a legenda da fotografia que todo mundo já intuía e fingia não ver.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.