O porta-voz do Kremlin apontou nesta semana o que qualquer dona de casa alemã já sabia havia três invernos: o crescimento do AfD nas pesquisas está diretamente ligado ao desastre autoinfligido da política energética que fechou reatores nucleares perfeitamente funcionais para bancar um sonho verde financiado com gás russo, e agora sem o gás russo. Moscou diz isso com sorriso de quem vende o remédio depois de ter vendido a doença, claro, mas o fato de o mensageiro ser antipático não muda o diagnóstico. O eleitor da Saxônia não precisa ler comunicado de Peskov pra entender que sua fábrica fechou porque o megawatt-hora custa quatro vezes o que custa no Texas.

A Alemanha praticou nos últimos quinze anos o experimento mais caro da história econômica europeia moderna, a chamada Energiewende, e agora colhe a fatura em desindustrialização, êxodo de capital produtivo pra Estados Unidos e Ásia, e uma classe política que insiste em jurar que o problema é o eleitor não ter compreendido a nobreza da causa. Quer dizer, gastaram meio trilhão de euros pra ter uma matriz mais suja, mais cara e mais dependente do humor de terceiros. Se isso não é definição de fracasso técnico, então precisamos reescrever o dicionário.

Olha, a lógica é tão elementar que dá vergonha explicar. Quando o Estado decide por decreto qual tecnologia venceu a corrida antes de a corrida acontecer, quando subsidia painel solar em país que passa metade do ano sem sol decente e desmonta usinas nucleares que produziam energia limpa a preço de custo, o resultado só pode ser esse: indústria química indo pra Louisiana, siderúrgica indo pra Índia, montadora indo pra China, e o eleitor de Chemnitz olhando pro boleto da luz e concluindo que talvez os partidos tradicionais não estejam exatamente do lado dele. O voto no AfD não é fenômeno ideológico misterioso, é resposta previsível de gente que foi tratada como cobaia de experimento verde sem ter dado consentimento.

Siga a trilha do dinheiro e a paisagem fica ainda mais reveladora. Quem lucrou com essa festa? Fabricantes chineses de painel solar, comerciantes americanos de gás natural liquefeito vendendo a preço de champanhe, consultorias de ESG cobrando por relatório em papel reciclado, ONGs verdes com orçamento maior que o de município médio, e políticos que garantiram cadeira em conselho de multinacional de energia renovável depois de aprovar a lei que criou o mercado da renovável. Quem pagou? O metalúrgico de Wolfsburg que perdeu o emprego, a padaria familiar que fechou porque o forno virou luxo, e o aposentado que passou a escolher entre aquecer o apartamento e comprar remédio.

A imprensa alemã, previsivelmente, prefere debater se o comentário do Kremlin é ingerência inaceitável em vez de perguntar se o comentário do Kremlin, por acaso, está factualmente correto. É o velho truque de atacar o mensageiro pra não ter que discutir a mensagem, e funcionou por um tempo, mas a conta de luz de janeiro chegou em fevereiro, e nenhuma manchete do Der Spiegel esquenta apartamento. O partido que hoje lidera pesquisas em vários estados do leste não venceu por brilhantismo próprio, venceu por eliminação natural: quando três partidos que se revezam no poder concordam entre si em quebrar o país da mesma maneira, sobra pro quarto que discorda.

Tem uma lição maior aqui que ultrapassa Berlim e chega em Brasília sem precisar de tradução. Quando o Estado se convence de que sabe qual será a tecnologia vencedora, qual empresa deve prosperar, qual fonte energética o cidadão deve consumir, e usa dinheiro do contribuinte pra impor sua visão iluminada, o resultado histórico é sempre o mesmo: apagão, êxodo industrial, empobrecimento generalizado e, no fim da linha, uma revolta eleitoral que os arquitetos do desastre insistem em classificar como extremismo em vez de reconhecer como fatura vencida. O alemão comum não virou nazista de repente. Ele apenas cansou de pagar caro pra passar frio enquanto o ministro do clima voa de jatinho pra conferência em Dubai.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.