Existe uma cena silenciosa que se repete todos os dias nas redações, nos escritórios, nos gabinetes e nas redes sociais deste país tropical: alguém, munido de um teclado e de uma opinião, senta-se para escrever e trava diante de uma bifurcação humilhante entre por que, porque, por quê e porquê. Quatro formas, mesma sonoridade, funções distintas, e um adulto formado em universidade federal paralisado como criança diante de um semáforo quebrado. O escândalo não está na dúvida, que é humana e legítima, mas no fato de que se tornou orgulho nacional não saber, rir da própria ignorância, tratar a gramática como frescura de professor aposentado. E, no entanto, é exatamente aí que a farsa começa.

Convém observar o desenho da coisa com olhos frios. Uma língua bem manejada é a única cerca que o cidadão comum tem contra o discurso profissional do político, do burocrata, do jornalista de release e do economista de banco central. Quem não distingue a conjunção causal do pronome interrogativo, quem não percebe quando um substantivo se esgueira travestido de advérbio, também não perceberá quando um projeto de lei chamado de ajuste fiscal for, na verdade, aumento de imposto, ou quando um decreto batizado de proteção ao consumidor for, palavra por palavra, reserva de mercado para o amigo do ministro. O sujeito que não domina a própria língua é, por definição, súdito de quem a domina.

Note-se a beleza sinistra do arranjo. As escolas públicas, sustentadas por confisco compulsório travestido de tributo, formam gerações incapazes de ler um contrato, de interpretar um edital, de identificar uma falácia grosseira em três linhas de coluna assinada. E, na saída dessa esteira, o mesmo Estado que cobrou pelo serviço mal prestado oferece, gentilmente, cartilhas simplificadas, aplicativos assistidos, programas de inclusão digital e, sobretudo, intérpretes oficiais da realidade. Você não entende? Não se preocupe, o governo entende por você. Não sabe escrever? Não faz mal, o funcionário público redige o requerimento e cobra a taxa. Ignorância é matéria-prima, e há toda uma indústria montada para refiná-la.

É útil lembrar como as tiranias antigas se ocupavam da linguagem antes mesmo de se ocuparem dos exércitos. Impérios queimaram bibliotecas, monarquias absolutistas monopolizaram a tipografia, regimes revolucionários rebatizaram meses, cidades e virtudes. Sabiam, esses senhores da bota lustrada, que quem controla o significado das palavras controla o significado das leis, dos contratos, das promessas de campanha e, no limite, da própria memória do que foi prometido ontem. A gramática, essa senhora antipática de saia longa, é o último obstáculo entre o cidadão e a redefinição arbitrária do real. Por isso ela é ridicularizada com tanto entusiasmo pelos mesmos que vivem de nos vender realidades novinhas em folha a cada ciclo eleitoral.

Repare, então, na estrutura elementar do golpe: se o povo não sabe quando usar o por que separado da pergunta, tampouco saberá perguntar, com a devida precisão, por que a inflação come o salário, por que a dívida pública cresce sem parar, por que o imposto sobe e o serviço piora, por que o parente do deputado apareceu no organograma da estatal. E, ainda que pergunte, receberá em troca um porque conjuntivo, causal, dogmático, dito com aquela cara de quem explica algo óbvio a um retardatário: porque é necessário, porque é preciso, porque é assim mesmo. A resposta chega antes da pergunta ser bem formulada, e o cidadão volta para casa satisfeito de ter sido educado por quem o rouba.

A conclusão silogística é aborrecida de tão simples. Se a linguagem é a ferramenta do pensamento, e se o pensamento é a ferramenta da liberdade, então quem entrega a linguagem entrega, no mesmo pacote, a liberdade e o bolso. Aprender a distinguir os quatro porquês não é preciosismo de gramático de província, é ato de resistência doméstica, é fechar uma porta que os profissionais da retórica oficial adorariam manter escancarada. Da próxima vez que alguém sorrir com desdém para uma dúvida sobre acento circunflexo, observe bem esse alguém: há grande chance de ele estar, consciente ou inconscientemente, do lado de quem prefere ovelhas mudas a leitores atentos. E a pergunta final permanece, como sempre, incômoda e barata: quem lucra, exatamente, com um país que não sabe mais perguntar direito?

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.