A Volvo Cars anunciou Klaus Zellmer, vindo da Skoda, como seu próximo presidente-executivo, e a imprensa financeira tratou o movimento como se fosse novidade estratégica. Não é. É o roteiro clássico da empresa que apostou tudo numa narrativa política e agora precisa de um rosto novo para explicar aos acionistas por que a conta não fecha. A Volvo prometeu ser 100% elétrica até 2030, recuou dessa promessa no ano passado, viu a Geely, sua controladora chinesa, apertar o cinto, e agora troca o comandante. Quem acompanha o setor sabe: o problema não é o CEO, é o modelo de negócio construído em cima de uma promessa que dependia de subsídio eterno para funcionar.
Olha, o carro elétrico europeu não é um produto, é um projeto de engenharia política. Nasceu da canetada de burocratas em Bruxelas que decidiram, sem consultar consumidor nenhum, que o motor a combustão seria banido até 2035. Toda a indústria foi obrigada a reorganizar bilhões de euros em capital para atender uma meta que nenhum comprador pediu. O resultado está aí: fábricas ociosas, demissões em massa na Alemanha, Volkswagen fechando planta pela primeira vez em 87 anos, e a Volvo trocando de CEO porque a matemática simplesmente não fecha quando o subsídio começa a secar. Quem paga a conta? O contribuinte europeu, que sustentou a farra via crédito fiscal, e o consumidor, que agora vê o preço do usado a combustão subir porque o novo virou artigo de luxo.
Me diz uma coisa: quando foi que a decisão sobre qual carro você vai dirigir deixou de ser sua e passou a ser de um comitê de tecnocratas? A resposta é precisa: no exato momento em que se aceitou a premissa de que o Estado sabe melhor que milhões de pessoas o que elas devem consumir. A Volvo, que já foi símbolo de engenharia sueca robusta, virou refém de uma cadeia de suprimentos dominada pela China, dependente de lítio boliviano, cobalto congolês e chips taiwaneses, tudo em nome de "salvar o planeta" numa equação que ninguém nunca fez a conta de verdade. A pegada de carbono de fabricar uma bateria de 600 quilos, minerar seus componentes em três continentes e depois descartá-la em quinze anos é convenientemente omitida dos relatórios de sustentabilidade.
Zellmer chega com a missão impossível de reconciliar o irreconciliável: entregar retorno ao acionista enquanto executa uma estratégia que só faz sentido se o dinheiro do governo continuar rolando. E não vai continuar. A Alemanha já cortou o subsídio ao elétrico em 2023 e as vendas despencaram 30% no primeiro semestre seguinte. A Grã-Bretanha adiou a proibição do motor a combustão. Os Estados Unidos, com a nova administração, sepultaram o mandato Biden. A Europa está descobrindo, tarde e mal, que não se constrói uma indústria competitiva em cima de uma muleta fiscal que os cofres não conseguem mais bancar. O que a Volvo está anunciando não é um novo CEO, é o começo do reconhecimento de que a festa acabou.
A trilha do dinheiro é elegante na sua tristeza: bilhões em créditos tributários foram para montadoras que agora demitem, bilhões em subsídios diretos foram para consumidores de classe média-alta comprar carros de 60 mil euros, e a fábrica de baterias que ia empregar 3 mil pessoas na Suécia, a Northvolt, pediu concordata há poucos meses depois de queimar 15 bilhões de dólares em capital. Alguém foi punido por essa alocação criminosa de recursos? Não. Os executivos saíram com pacotes generosos, os políticos que empurraram a agenda foram promovidos, e o custo, como sempre, ficou pulverizado entre milhões de pagadores de impostos que nunca autorizaram nada disso.
A lição que nenhum jornal de negócios vai escrever com todas as letras é esta: uma empresa não pode ser mais sábia que o mercado que a sustenta, e nenhum mercado é mais sábio que a soma das escolhas livres de quem gasta o próprio dinheiro. Quando se substitui o julgamento do consumidor pelo decreto do burocrata, o que se obtém é exatamente o que a Volvo está vivendo agora: um produto que ninguém quer no preço que precisa ser cobrado, sustentado por um modelo que ninguém consegue pagar sem a bengala do Estado. Trocar o CEO é trocar o para-brisa quando o problema é o motor. A Volvo vai descobrir isso da pior maneira possível, e o novo comandante servirá, na melhor das hipóteses, como o bode expiatório designado para o momento em que a fantasia terminar de desabar sobre a realidade.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.