A Volvo Cars saiu essa semana anunciando que vai despejar treze modelos novos no mercado até 2030, entre elétricos, híbridos e uma volta discreta ao bom e velho motor a combustão que ela mesma havia decretado morto meia dúzia de anos atrás. O tom do anúncio é de renascimento estratégico. A tradução honesta é outra: a empresa apostou tudo numa profecia política sobre o fim do combustível fóssil, viu o consumidor rir da profecia, e agora recua fingindo que sempre foi essa a rota. Quer dizer, o roteiro é o mesmo de sempre; muda só o figurino do executivo que sobe ao palco pedir paciência aos acionistas.

Vale lembrar o que aconteceu antes desse pacote de treze salvações. A Volvo passou anos alinhada à cartilha regulatória europeia, prometendo ser cem por cento elétrica até 2030, cortando linhas lucrativas, reorganizando fábricas, sacrificando margem em nome de uma agenda que ninguém no chão de vendas pediu. Enquanto isso, o consumidor comum, aquele que financia carro em sessenta meses e não lê relatório ESG, continuou querendo veículo que rode mil quilômetros sem depender de tomada e de subsídio estatal. O mercado, esse organismo teimoso que agrega bilhões de decisões individuais em tempo real, mandou o recado pelo único idioma que executivo entende no fim do trimestre: queda de venda, encalhe de estoque, ação despencando.

E aí entra a parte que ninguém quer contar direito. Esses treze modelos não são fruto de genialidade empresarial nem de leitura fina do desejo do cliente. São confissão de que a aposta anterior foi financiada por incentivo fiscal, crédito subsidiado e regulação que empurrou a indústria inteira num único sentido, criando uma bolha de oferta elétrica sem demanda proporcional. Siga o dinheiro e você encontra o mesmo padrão de sempre: governo europeu determina rota, banco central barateia crédito para quem segue a rota, montadora dança conforme a música achando que é visão de mercado, e quando a música para, sobra prejuízo privatizado e conta pública que ninguém quer assinar. O consumidor pagou duas vezes, no imposto que financiou o subsídio e no preço inflado do carro que ele nem queria.

Tem uma sabedoria antiga sobre não derrubar cerca cujo propósito você não entende, e a indústria automotiva pisou nela com os dois pés. A cerca chamava-se motor a combustão, refinada por um século de engenharia, cadeia de suprimentos consolidada, rede de manutenção capilarizada, e foi derrubada em nome de uma utopia energética planejada em gabinete de Bruxelas por gente que nunca fabricou parafuso. Agora a Volvo, junto com meia dúzia de concorrentes, refaz a cerca correndo, gastando bilhões para reconstruir o que destruiu, e ainda quer aplauso pela coragem de mudar de ideia. Isso não é estratégia, é pedido de desculpa embrulhado em press release.

O que se vê no anúncio é a promessa reluzente de treze novidades, um portfólio equilibrado, tecnologia de ponta. O que não se vê, e é o que importa, são os empregos que já foram cortados na transição forçada, os fornecedores tradicionais que quebraram por não conseguir migrar no ritmo imposto, o capital que foi queimado em fábricas de bateria que operam com metade da capacidade, e o consumidor médio que perdeu opção acessível de mobilidade porque a régua regulatória empurrou toda a indústria para o segmento premium. A conta dessa reengenharia forçada não aparece no balanço da Volvo, aparece na carteira do trabalhador que agora anda de ônibus lotado enquanto o burocrata que desenhou a política se aposenta com pensão indexada.

No fim, a lição desses treze modelos é a mais velha da economia e a que menos se aprende: ninguém, por mais titulado que seja o comitê, sabe melhor que milhões de consumidores livres o que deve ser produzido, quando e a que preço. Toda vez que se tenta substituir esse sistema descentralizado de descoberta por decreto tecnocrático, o resultado é o mesmo: desperdício monumental, correção tardia, e a mesma turma pedindo mais poder para consertar o estrago que ela mesma causou. A Volvo vai vender seus treze carros, alguns até bons, e o ciclo recomeça, porque ninguém demite o planejador central, só o operário da linha de montagem.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.