O escândalo, quando enfim vaza, nunca é o que a plebe imaginava. Achávamos que ministro do Supremo andava de fila comum, encostado no balcão como qualquer alma penada com passaporte na mão. Descobrimos agora, pelas mensagens que a Polícia Federal arrancou do celular de um ex banqueiro, que o voo reservado para Barci teve pedido expresso de prioridade, feito com a naturalidade de quem encomenda pizza pelo aplicativo. Naquele 22 de agosto de 2025, enquanto o brasileiro comum era revistado, cheirado e humilhado no raio X do saguão, o togado e sua senhora desciam pelo corredor onde a lei se ajoelha e pede licença.

Convém prestar atenção no verbo. Não foi sugerido, não foi solicitado, foi pedido, e pedido por quem tem crédito acumulado no balcão da influência. Existe uma economia paralela nesta República, uma moeda que não circula na feira mas movimenta o país inteiro, e essa moeda se chama acesso. O ex banqueiro depositava favores, o gabinete rendia juros. Não é preciso ser guardião de cofre para entender: quando o financista liga para acelerar o avião do ministro, ele não está sendo gentil, está apenas retirando dividendos de uma aplicação de longo prazo.

Sigamos a trilha, porque ela nunca decepciona. Homem de banco, mesmo ex homem de banco, não gasta seu capital político para agradar desconhecido. Cada telefonema tem preço, cada prioridade concedida tem contrapartida esperada, e quando a contrapartida é a boa vontade de quem julga, o retorno é astronômico. É o velho arranjo dos tempos dos coronéis, quando o dono do engenho mandava esperar o padre para começar a missa. Trocaram se as batinas por togas, os engenhos por instituições financeiras, mas a lógica da servidão continua intacta, apenas migrou de estado.

Dirão os defensores de plantão que se trata de mero cortesia aeroportuária, coisa banal, chá das cinco entre autoridades. Aqui vale o silogismo mais tedioso: se a autoridade máxima do Judiciário depende de operador financeiro para ter seu voo priorizado, então a autoridade máxima do Judiciário é devedora de operador financeiro. Se é devedora, não é imparcial. Se não é imparcial, o cidadão comum foi enganado quando lhe venderam a fábula do juiz neutro que decide olhando para o teto e consultando apenas a consciência. A conclusão vem sozinha, e não é bonita.

Repare, ainda, na assimetria cósmica do episódio. O trabalhador que atrasa dois minutos no ponto perde vale transporte. O comerciante que erra uma vírgula no imposto recebe multa com juros compostos. O motorista que fura o pedágio ganha processo. Mas o ministro que embarca com passe livre, escoltado pelo dedo de um banqueiro no rádio da torre, é apenas um passageiro apressado. A lei, aquela senhora que dizem cega, apalpa muito bem os bolsos antes de decidir para quem abre os olhos. E vaza rio abaixo, direto para o hangar, quando o passageiro tem sobrenome pesado.

Fica no ar a pergunta que a coluna gosta de repetir até enjoar: quem paga a conta desse aeroporto de privilégios, e quem recebe o troco? Paga o brasileiro sem hangar, o litigante anônimo cujo processo dorme dez anos numa gaveta, o empresário estrangulado por decisões monocráticas. Recebe o clube pequeno dos que trocam mensagens carinhosas, dos que oferecem prioridade e cobram sentença. É a República da fila preferencial, onde a toga não pesa nas costas de quem a veste, pesa apenas no ombro de quem é obrigado a curvar se diante dela.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.