Quatro vírgula quarenta e um por cento dos eleitores brasileiros, no segundo turno de dois mil e vinte e dois, foram até a urna, enfrentaram fila, mesário, biometria capenga, e apertaram teclas que valeram exatamente zero. Nada. Poeira digital. O tribunal eleitoral, com a solenidade de um cartório do interior explicando que carimbo azul vale mais que carimbo preto, esclarece ao rebanho que voto nulo é aquele em que se digita um número inexistente e voto em branco é aquele em que se aperta o botão branco, mas que, para efeitos práticos, os dois vão para a mesma vala comum das estatísticas. Traduzindo do juridiquês para o português dos mortais, o cidadão pode escolher entre duas maneiras diferentes de não escolher, e nenhuma delas incomoda quem já está com o traseiro na cadeira.
A distinção existe apenas para dar trabalho a professor de direito eleitoral e a apresentador de telejornal com pouco assunto. O voto nulo, tecnicamente, é o eleitor rasgando a cédula na cara do sistema. O voto em branco é o eleitor confessando que não tem opinião. O sistema recebe os dois com o mesmo sorriso condescendente, porque a conta dos válidos é feita sem eles, e é sobre os válidos que se distribui o poder. É como pagar a conta do restaurante e receber troco em bala de hortelã, com o garçom explicando que a bala tem sabor diferente do chiclete, mas nenhum dos dois compra pão na padaria.
Há uma lenda urbana, cultivada com carinho pelos que gostam da democracia como quem gosta de novela, segundo a qual, se o voto nulo ultrapassasse a metade, a eleição seria anulada. Bobagem de boteco. A legislação enterrou esse dispositivo faz tempo, e o fez pela razão mais óbvia do mundo, ninguém que está dentro do castelo autoriza que se derrube o portão. O eleitor pode nulear cem por cento se quiser, o eleito no dia seguinte assina posse, cruza as pernas na cadeira estofada e começa a distribuir cargo para o cunhado. A urna não devolve dinheiro, não anula ninguém, não constrange nenhum ocupante de poltrona.
Enquanto isso, siga o rastro do dinheiro, porque ele nunca mente. Cada urna, cada mesário, cada boca de fumo transformada em zona eleitoral custa alguma coisa, e essa alguma coisa sai do bolso de quem trabalha, seja ele nulista, brancante ou fanático de qualquer legenda. O orçamento do tribunal eleitoral, os fundos partidário e eleitoral, o rio de recursos que irriga campanhas, tudo isso é bancado pelo mesmo sujeito que, ao final do ritual, descobre que sua opção de rasgar a cédula é catalogada como irrelevância estatística. Ele paga pela festa, entra vestido de gala, e no meio do salão descobre que foi contratado como garçom.
Toda vez que alguém sussurra que anular é jogar fora o voto, faça a pergunta inversa que ninguém quer ouvir, votar em quem exatamente não é jogar fora? A escolha entre dois candidatos previamente filtrados por partido, marketing, tempo de televisão e fundo público não é liberdade, é cardápio de refeitório. O sujeito que anula ao menos preserva a honestidade intelectual de não legitimar a farsa. O sujeito que vota no menos pior assina embaixo, e depois reclama que o menos pior era pior do que ele imaginava. Se todos concordam que votar é sagrado, provavelmente é porque alguém está recebendo muito por manter esse dogma de pé, e não é o eleitor.
No fim das contas, a diferença entre voto nulo e voto em branco é a mesma diferença entre ser roubado à mão armada e ser roubado por golpe de engenharia social. Muda o método, o prejuízo é idêntico. Quem paga a conta é sempre o mesmo pagador de imposto que agora recebe aula, pela ene ésima vez, sobre a nobreza do dever cívico. Quem recebe é sempre o mesmo aparato que vive de dizer ao pagador que sem ele o mundo desaba. O botão branco e o número inexistente são apenas dois portões diferentes do mesmo cemitério de vontades.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.