Stuart Aitken já tinha vendido, e agora foi a vez de Valerie Jabbar Adcock, vice-presidente executiva e diretora comercial da Kroger, se desfazer de US$ 4,4 milhões em ações KR. O detalhe delicioso, e que ninguém no jornalismo econômico tradicional quer sublinhar, é que essas vendas são registradas nos formulários 10b5-1, aqueles planos "programados com antecedência" que servem, na prática, como fantasia jurídica para executivo despejar papel sem que a Comissão de Valores mobiliárias americana caia em cima. Traduzindo do juridiquês para o português de padaria: quem está dentro da cozinha da empresa está saindo pela porta dos fundos com o bolso cheio, enquanto a dona de casa em Ohio paga US$ 6 num galão de leite e engole o discurso de que "o pior da inflação já passou".
Vamos seguir o dinheiro, que é o único mapa honesto neste tipo de história. A Kroger é a segunda maior rede de supermercados dos Estados Unidos, controla algo próximo de 2.700 lojas, e viu suas margens engordarem justamente no período em que o americano médio passou a escolher entre encher o tanque ou encher a geladeira. A empresa foi acusada, em processo aberto pela Comissão Federal de Comércio, de ter usado a inflação como cortina de fumaça para aumentar preços acima do custo real, prática que no varejo se chama "greedflation" e que no dicionário do vovô se chamava, com mais honestidade, roubo com nota fiscal. E adivinha quem foi a diretora comercial durante esse período? Exatamente a mesma senhora que agora está vendendo papel a rodo.
Quer dizer, existe uma lógica ferroviária aqui que dispensa doutorado em Chicago. Executivo não vende ação de empresa que ele acha que vai dobrar. Executivo vende ação de empresa que ele acha que já esticou o elástico até onde dava. E quando o insider vende ao mesmo tempo em que a companhia briga na Justiça para engolir a Albertsons numa fusão de US$ 24,6 bilhões que o regulador barrou, e ao mesmo tempo em que o CEO Rodney McMullen foi defenestrado em março por "conduta pessoal inconsistente com a ética da empresa", o cheiro que fica no ar não é de flor de cerejeira. É de peixe podre embrulhado em relatório trimestral.
O que o leitor precisa entender, e aqui está a parte que a Bloomberg em português nunca vai escrever, é que este é o funcionamento normal, previsível e absolutamente esperado do capitalismo de compadrio americano. A Kroger operou anos numa estrutura oligopolizada, protegida por barreiras regulatórias que ela mesma ajudou a construir via lobby, comprou concorrente atrás de concorrente com a bênção dos mesmos reguladores que hoje fingem indignação, e no final da farra os executivos monetizam seus pacotes de stock options e caem fora. O consumidor, que é o único que não tem plano 10b5-1 nenhum, fica com a conta, com o rótulo de "resiliente" no relatório da Reuters e com uma inflação de alimentos que oficialmente já cedeu mas que na gôndola continua rindo da cara dele.
E aqui vem a lição que a coluna de economia da grande imprensa vai fingir que não viu: o problema nunca foi a Kroger. O problema é um sistema monetário que jogou trilhões de dólares na economia entre 2020 e 2022, inflou todos os ativos, todos os balanços e todos os bônus executivos, e agora finge que a inflação foi culpa "das cadeias de suprimentos" ou "da guerra na Ucrânia". A Kroger é sintoma, não doença. A doença mora numa avenida chamada Constitution, em Washington, dentro de um prédio com colunas gregas onde um comitê decide o preço do dinheiro que você usa para comprar tomate. Enquanto essa impressora existir, sempre haverá um Adcock vendendo no topo e uma dona Maria comprando no fundo.
Me diz uma coisa, então: quem realmente enriqueceu com a inflação dos últimos cinco anos? Não foi o padeiro, não foi o caminhoneiro, não foi o pequeno produtor rural do interior de Iowa. Foi exatamente quem estava na sala onde os preços são decididos, e quem estava perto o suficiente do balcão do banco central para pegar o dinheiro novo antes de ele perder valor. É o que sempre foi, é o que sempre será enquanto existir moeda de papel e banco central com poder discricionário. Os nomes mudam, os cargos mudam, as empresas mudam. A engenharia do roubo, essa, é imortal.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.