Na conferência do Goldman Sachs esta semana, o Walmart apresentou aos investidores aquilo que o mercado já sabia mas fingia não ver, o crescimento da companhia parou de vir das gôndolas há muito tempo. O executivo de plantão falou em aceleração digital, ganho de participação em categorias de alta margem, expansão do marketplace e, claro, a joia da coroa, a divisão de publicidade digital que cresce em ritmo de startup de tecnologia enquanto o varejo americano tradicional agoniza. Quer dizer, a maior rede de lojas físicas do mundo está pedindo para ser avaliada como se fosse uma empresa de anúncios, e o Goldman Sachs, sempre gentil com quem paga banquete, aplaudiu de pé.

Olha, o truque aqui não é novo, é apenas mais bem executado. Você vende um pacote de arroz por margem quase zero, atrai o consumidor para dentro do aplicativo, coleta cada clique, cada busca, cada hesitação de compra, e depois revende esse perfil para as próprias marcas que abastecem sua prateleira. A Procter, a Unilever, a PepsiCo pagam para aparecer melhor posicionadas no seu próprio distribuidor. É o mesmo fornecedor que já pagou pela gôndola, pelo desconto promocional, pela verba de trade, agora pagando de novo pelo pixel patrocinado. E o consumidor, coitado, acha que está economizando porque o rolo de papel higiênico caiu quinze centavos.

Me diz uma coisa, quando o Federal Reserve inundou a economia americana de liquidez barata durante uma década inteira, quem foram os primeiros a capturar essa enxurrada de crédito? As big techs e os gigantes do varejo capazes de queimar caixa por anos para construir infraestrutura digital que nenhum concorrente pequeno consegue replicar. O Walmart não venceu a Amazon no jogo digital por ser mais eficiente, venceu porque pôde financiar prejuízo operacional em logística de última milha enquanto o mercadinho da esquina fechava as portas por não conseguir renovar o capital de giro a vinte por cento ao ano. Juro artificialmente baixo por tempo demais não democratiza economia, concentra tudo nas mãos de quem já era grande.

E tem o outro lado do balanço, aquele que ninguém comenta na conferência de investidores. Cada dólar de margem extra que o Walmart extrai via publicidade digital é um dólar a menos no bolso do fornecedor, que compensa cortando gente na fábrica ou repassando ao consumidor final através de embalagens menores pelo mesmo preço, aquela inflação silenciosa que os índices oficiais não capturam direito. O varejista celebra crescimento de lucro, o mercado celebra a ação subindo, e o cara que vai ao supermercado sente que o carrinho está mais leve e a conta mais pesada, sem saber exatamente por quê. É a mão invisível funcionando ao contrário, ninguém vê porque ninguém quer olhar.

O mais irônico é que essa história é vendida como triunfo do livre mercado quando é exatamente o oposto, é o resultado previsível de décadas de dinheiro barato, regulação que sufoca o pequeno e favorece o grande, e um sistema tributário que pune o empreendedor de bairro enquanto abre brechas de planejamento fiscal para o conglomerado global. Se o campo de jogo fosse realmente nivelado, o Walmart teria que competir com dez mil concorrentes locais em vez de comprar cada um deles ou quebrá-los por atrito. Concentração de mercado dessa magnitude não é vitória do capitalismo, é sintoma de que o capitalismo foi sequestrado em algum ponto do caminho e ninguém percebeu.

Então quando o próximo relatório trimestral vier com números recordes e o analista do Goldman escrever que o Walmart está reinventando o varejo, lembre-se do que está sendo reinventado de verdade, é o modelo de extração de renda travestido de conveniência. A loja virou fachada, o consumidor virou produto, o fornecedor virou refém, e o lucro real está no dado que você entregou de graça enquanto procurava fralda em promoção. Tem coisa que só funciona porque as pessoas pararam de perguntar como funciona.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.