A notícia parece técnica, quase entediante. O Wells Fargo, um dos maiores bancos comerciais do planeta, iniciou cobertura da Terawulf, mineradora de bitcoin listada na Nasdaq, com recomendação de overweight, o eufemismo elegante de Wall Street para dizer "comprem, pessoal, comprem". O preço-alvo veio generoso, o relatório veio bonito, e o mercado reagiu como reage sempre que um analista de terno caro carimba um papel com a bênção institucional. Só que, por trás do carimbo, há uma comédia que merece ser desmontada com calma.

Comecemos pelo óbvio que ninguém quer enxergar. O Wells Fargo é a mesma instituição que, em 2016, foi apanhada abrindo milhões de contas falsas em nome de clientes que nunca autorizaram, pagou bilhões em multas, viu executivos serem banidos do setor e, ainda assim, seguiu operando como se nada tivesse acontecido, porque no capitalismo de compadrio a punição é sempre a conta que o contribuinte paga pelo banco que o traiu. Este é o oráculo que agora diz onde o investidor deve colocar o dinheiro. Um sujeito que foi flagrado mentindo sistematicamente para os próprios clientes agora se apresenta como bússola moral do mercado de criptoativos. É como pedir conselho de dieta ao chef que envenenou o cardápio.

Sigamos o dinheiro, porque a trilha revela mais do que o relatório. Mineradoras de bitcoin como a Terawulf vivem de eletricidade barata, subsídios energéticos indiretos e do preço volátil do próprio bitcoin, ativo que existe justamente porque uma geração inteira desconfiou dos bancos comerciais e dos bancos centrais que os alimentam. O paradoxo é delicioso. O bitcoin nasceu como resposta à impressora de dinheiro do Federal Reserve, foi desenhado para ser escasso onde o dólar é fabricado por decreto, e agora depende da bênção dos mesmos banqueiros que ele foi criado para dispensar. Quando o carrasco começa a elogiar a corda, a corda deveria desconfiar.

Há ainda a questão do timing, que nunca é acidental em Wall Street. Bancos de investimento não iniciam cobertura de setor por curiosidade acadêmica. Iniciam quando têm clientes institucionais posicionados, quando precisam gerar liquidez para saídas planejadas, quando o comitê de risco já decidiu que a próxima onda vai vir e é preciso preparar o público para comprar a alta que os grandes vão vender. O pequeno investidor lê "overweight" e enxerga oportunidade. O gestor de fundo lê o mesmo relatório e enxerga a fila de compradores que vai absorver sua posição. São dois idiomas, o mesmo papel, e apenas um dos lados sabe que está numa mesa de pôquer.

O mais revelador, porém, é o significado cultural do episódio. Quando o sistema bancário tradicional, financiado por bancos centrais que imprimem moeda ao ritmo de trilhões, começa a distribuir selos de qualidade para empresas que produzem justamente o antídoto dessa impressão, o que se está anunciando não é o triunfo do bitcoin, é a captura dele. É a velha lógica de sempre. Aquilo que não se consegue destruir, se abraça; aquilo que se abraça, se domestica; aquilo que se domestica, deixa de ameaçar. A criptomoeda que ia libertar o mundo do sistema financeiro está sendo lentamente absorvida pelo sistema financeiro, e o relatório do Wells Fargo é apenas mais um capítulo desse abraço mortal.

Resta ao leitor a pergunta que ninguém no relatório fez. Se a Terawulf é tão boa assim, por que o banco só descobriu agora? E se ela era ruim ontem e virou boa hoje, o que mudou, a empresa ou o interesse de quem escreve o relatório? Toda vez que um grande banco descobre uma virtude, alguém já vendeu essa virtude a preço de vício. O mercado é livre, sim, mas nem por isso é ingênuo. Quem confia no carimbo de quem foi pego mentindo merece o prejuízo que a próxima correção vai entregar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.